História
Poços de Caldas nasceu pela água. As primeiras notícias das fontes sulfurosas datam de 1765 — relatos de viajantes que descreveram poços com cheiro de enxofre em meio à floresta da serra mineira, nos quais o gado doente, dizia-se, se curava. O médico Dr. Manoel da Silveira Rodrigues sistematizou essas observações em 1775, na "Memória sobre as águas hidro-sulfuradas de Minas Gerais", e o naturalista francês Auguste Saint-Hilaire visitou e descreveu o sítio em 1819. Mas o salto institucional veio em 1872, quando o Senador Joaquim Floriano de Godoy, então Presidente da Província de Minas Gerais, tomou medidas administrativas decisivas: análise oficial das águas (Lei 1.909/1872) e desapropriação dos terrenos para fundar uma "estação balneária". Em 06/11/1872, o capitão José Bernardes Junqueira doou 96 hectares de suas sesmarias — data que a Lei Municipal nº 365 consagrou como aniversário da cidade.
A "Villa" cresceu ao redor das águas. A virada veio em 1886, quando Dom Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina inauguraram pessoalmente o ramal da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, conectando a capital paulista ao sul mineiro. Poços virou destino da aristocracia: nas décadas de 1920-1930 ergueram-se as Thermas Antônio Carlos, o Palace Hotel, o Palace Casino. Getúlio Vargas tinha suíte permanente no Palace; Rui Barbosa, Santos Dumont, Olavo Bilac, João do Rio frequentaram a cidade; Carmen Miranda, Sílvio Caldas, Orlando Silva cantaram nos cassinos.
O segundo ciclo veio com a industrialização. Em 1959, o presidente Juscelino Kubitschek lançou pedra fundamental da Usina de Poços de Caldas — uma instalação da CNEN para tratamento do minério Caldasito (zirconita com urânio e tório). Em 1965, a Alcoa chegou a Poços — sua primeira unidade no Brasil. A descoberta das jazidas de urânio na década de 1960-1970 (Campo do Agostinho em Poços, Campo do Cercado em Caldas) consolidou o Complexo Mínero-Industrial do Planalto de Poços de Caldas. A mina de urânio da INB operou em Caldas entre 1982 e 1995, e desde então a região convive com o passivo dos rejeitos radioativos. O fenômeno se reabre em 2025-2026 com a chegada de mineradoras estrangeiras interessadas nas terras raras do Planalto, sob fiscalização do Ministério Público Federal.
Em 2022, Poços comemorou seu sesquicentenário; em 2024, elegeu Paulo Ney (PSDB) no 1º turno; em 2026, recebe a XIX Conferência Estadual da Advocacia Mineira. A cidade segue sua trajetória — da água termal ao alumínio sustentável; da elite cassineira aos 500 mil turistas anuais — com a coerência institucional de quem carrega 150 anos de história escritos pela ciência, pela água e pelo trabalho.