História
Poços de Caldas — da caldeira vulcânica de 80 milhões de anos à estância hidromineral histórica das Américas
Poços de Caldas tem uma história geológica que precede em muito sua história humana. A cidade está integralmente assentada dentro de uma caldeira vulcânica extinta — o Maciço Alcalino de Poços de Caldas —, formada há aproximadamente 80 milhões de anos (Cretáceo Superior). Trata-se de uma das maiores estruturas alcalinas circulares do mundo, com cerca de 800 km² de área e eixos de 30 km (NO-SE) por 35 km (NE-SO). É a única cidade brasileira urbanizada integralmente dentro de uma caldeira vulcânica dessa escala — singularidade geológica de relevância nacional, reconhecida pela ALMG e por estudos da USP.
A presença humana inicial se dá por índios Cataguás e por tropeiros da Estrada Real no século XVIII, atraídos pelos afloramentos termais sulfurosos a 45°C que brotavam ao longo das fraturas da caldeira. A ocupação institucional, porém, é tardia: em 19 de julho de 1872, a Lei Provincial nº 1.909, de iniciativa do então presidente da Província de Minas Gerais Senador Joaquim Floriano de Godoy (07/1872 a 01/1873), funda o povoado oficial e determina a análise das águas mineromedicinais. 6 de novembro de 1872 é a data simbólica de fundação — aniversário oficial da cidade até hoje.
Em 1° de setembro de 1888, a Lei nº 3.659 eleva o povoado à condição de vila, com a denominação de "Poços de Caldas" — em referência ao desmembramento do município de Caldas/MG, do qual fazia parte. Em 1889, Pedro Sanches consolida a estrutura urbana inicial e recebe a alcunha popular de "fundador" institucional moderno — sua memória é homenageada na Praça Pedro Sanches, originalmente "Praça Senador Godoy".
No início do século XX, a vocação termal consolida-se. Em 1900, são exploradas comercialmente as primeiras fontes sulfurosas. Em 1905, é fundada a Santa Casa de Poços de Caldas (Irmandade do Hospital), hoje 121 anos e principal hospital filantrópico do município. Em 1917, instala-se a Comarca de Poços de Caldas no TJMG (código 0518) — uma das mais antigas do Sul de Minas e hoje classificada como Entrância Especial, raridade entre comarcas do interior.
O ciclo definidor da cidade ocorre entre 1927 e 1930, sob a liderança do Presidente do Estado de Minas Gerais Antônio Carlos Ribeiro de Andrada (1926-1930). Em 1927, frente à insolvência da Companhia Melhoramentos (que detinha os ativos termais), o Governo Estadual adquire seus bens, cria a Superintendência de Serviços Termais de Poços de Caldas e executa, entre fim de 1928 e início de 1930, o conjunto de obras urbanísticas que define a face contemporânea da cidade: o Park José Affonso Junqueira, as Termas Antônio Carlos (em homenagem ao próprio presidente), o Palace Casino e a remodelagem completa do Palace Hotel — inaugurado em 10 de maio de 1929 sob projeto do arquiteto Eduardo Pederneiras, em estilo eclético neoclássico com elementos art déco (vitrais, colunas, mármores italianos, pastilhas decorativas). Essas intervenções consagram Poços como a primeira estância hidromineral das Américas — vetor identitário que perdura até hoje.
Entre 1930 e 1950, o Palace Hotel e o Palace Casino vivem seu auge — recebem Carmen Miranda, Silvio Caldas, Orlando Silva, Santos Dumont, Olavo Bilac, Ruy Barbosa e outras figuras nacionais. A cidade se firma como destino turístico de elite do Brasil Imperial-Republicano.
Em 1941, ocorre uma virada decisiva. A família Carvalho Dias identifica bauxita em terras próprias no município e funda a CBA — Companhia Brasileira de Alumínio, hoje controlada pelo Grupo Votorantim (68,6% das ações ordinárias) e maior produtora de alumínio primário do Brasil (~480 mil toneladas/ano). A descoberta inaugura o ciclo industrial-mineral que perdura até hoje: em 2024, Poços ainda produzia 370 kt de bauxita, e a cidade abriga também operação significativa da Alcoa (refinaria de alumina e fundição).
Em 1954, a Basílica de Nossa Senhora da Saúde recebe título de Basílica do Vaticano — uma das poucas basílicas do interior mineiro, em homenagem à padroeira histórica da cidade.
Em 13 de maio de 1958, é inaugurado o Cristo Redentor de Poços de Caldas — 30 metros de altura (16 m de estátua + 14 m de pedestal), idealizado por José Raphael dos Santos Neto e construído pela firma Ottaviano Papais (Campinas/SP). Inspirado no Cristo do Rio de Janeiro (1931, 27 anos antes), é hoje um dos cartões-postais da cidade — situado no alto da Serra de São Domingos.
Em 6 de maio de 1982, as Indústrias Nucleares do Brasil (INB) inauguram, no Planalto de Poços, a primeira mina de urânio em escala industrial do Brasil — ~18 km² de área, operação encerrada em 1995 por esgotamento de reservas e condições de mercado. Hoje, a INB Caldas está em desmonte ambiental supervisionado pela ANM (Lei 14.514/2022), com desafios de gerenciamento de passivos radioativos.
Em 1989, o Palace Hotel é tombado como Patrimônio Histórico e Arquitetônico de Poços de Caldas — selo institucional que consolida a memória da era termal-balneária.
No século XXI, Poços consolida-se como cidade multifuncional: turismo termal e patrimonial + indústria do alumínio + ensino superior multi-institucional (PUC Minas, UNIFAL-MG Campus Poços, IF Sul-MG, UEMG) + saúde regional (Santa Casa centenária) + polo de aposentadoria (clima ameno, qualidade de vida). Em 2017-2024, o prefeito Sérgio Azevedo governa por dois mandatos consecutivos — único reeleito da história local até então. Em outubro de 2024, é eleito Paulo Ney de Castro Júnior (PSDB) com o vice Eduardo Januzzi (Novo), empossados em 01/01/2025 em solenidade simbólica no Palace Casino — gestão 2025-2028. Em 2026, Poços é designada sede da XIX Conferência Estadual da Advocacia Mineira pela 25ª Subseção da OAB/MG, marca de prestígio nacional.