História
Recife — capital fundada entre arrecifes, holandeses e revoluções
Recife é a capital de Pernambuco e centro da Região Metropolitana do Recife (RMR) — a 4ª maior região metropolitana do BR com ~4 milhões de habitantes. Tem 1.488.920 habitantes no Censo 2022 (estimativa 2025: 1.588.376) e área de 218,843 km², com densidade demográfica beirando os 6.803 hab/km² — 12ª cidade mais densamente povoada do BR. Gentílico: recifense.
Origem — Vila de Ribeira do Mar dos Arrecifes (1537)
Em 12 de março de 1537, Duarte Coelho Pereira — 1° donatário da Capitania Hereditária de Pernambuco (Nova Lusitânia), conferida por D. João III de Portugal em 1534 — fundou a Vila de Ribeira do Mar dos Arrecifes dos Navios no porto natural protegido pelos arrecifes (formações de pedra submarinas que dão nome à cidade). Era um povoado portuário de apoio à vizinha Olinda (capital provincial fundada em 1535). Durante mais de um século, Recife funcionou subordinado a Olinda, embora já fosse o porto efetivo do açúcar pernambucano.
Mauritsstad — domínio holandês (1630-1654)
O período mais singular da história recifense é o do Brasil Holandês (1630-1654), quando a Companhia das Índias Ocidentais (WIC) tomou Recife em 1630. Sob o governo do Conde Maurício de Nassau (1637-1644), Recife foi convertida em Mauritsstad (Cidade Maurícia) — primeira experiência de urbanismo planejado das Américas, com pontes, canais, jardins botânicos, observatório astronômico e a primeira ponte de pedra do Novo Mundo. Em 1641, foi inaugurada na Rua do Bom Jesus a Sinagoga Kahal Zur Israel — PRIMEIRA SINAGOGA DAS AMÉRICAS, fundada pela comunidade sefardita que acompanhou a WIC. Nassau trouxe ainda artistas como Frans Post e Albert Eckhout, que produziram o primeiro registro pictórico europeu da paisagem brasileira.
Insurreição Pernambucana (1645-1654) — restauração brasileira
A partir de 1645, eclodiu a Insurreição Pernambucana — guerra de restauração luso-brasileira contra os holandeses — liderada por Henrique Dias (negro, comandante do Terço dos Henriques), Antônio Filipe Camarão (indígena potiguara, comandante do Terço dos Camarões), André Vidal de Negreiros e João Fernandes Vieira (luso-brasileiros). As Batalhas dos Guararapes — Guararapes I em 19/04/1648 e Guararapes II em 19/02/1649, no que hoje é o município de Jaboatão dos Guararapes — são consideradas o marco simbólico da formação do Exército Brasileiro (data oficial 19/04 — Dia do Exército). A Capitulação do Campo do Taborda em 26/01/1654 selou a saída dos holandeses e marcou o fim do Brasil Holandês — uma das raras vitórias militares brasileiras pré-Independência.
Guerra dos Mascates (1709-1711) e elevação a Vila
A tensão entre os mascates portugueses do Recife (comerciantes ascendentes) e os senhores de engenho da decadente Olinda resultou na Guerra dos Mascates (1710-1711). Em 19 de novembro de 1709, o Rei João V elevou o Recife a Vila — separação institucional definitiva de Olinda.
Século XIX — revoluções, capital, faculdade de direito
Recife protagonizou três grandes movimentos revolucionários imperiais. Em 1817, a Revolução Pernambucana estabeleceu a PRIMEIRA REPÚBLICA BRASILEIRA (efêmera, ~3 meses, capital Recife — antecipou em 5 anos a Independência). Líderes: padre João Ribeiro, Domingos José Martins, Antônio Carvalho. Bandeira: Cruzeiro azul-branca. Em 1824, a Confederação do Equador — segunda tentativa republicana, liderada por Frei Caneca, Cipriano Barata e Manoel de Carvalho Paes de Andrade — foi esmagada pelas tropas imperiais. Frei Caneca foi executado por fuzilamento em 13/01/1825 (porque os carrascos negros se recusaram a enforcá-lo). Em 03/02/1825, em resposta direta à Confederação, D. Pedro I criou a POLÍCIA MILITAR DE PERNAMBUCO (PMPE) — 2ª PM mais antiga do BR depois apenas da PMRJ-1809.
Em 22/06/1823, Recife foi elevado a Cidade por D. Pedro I. Em 11/08/1827, foi criada a Faculdade de Direito de Olinda (depois transferida para Recife em 1854 — FDR/UFPE) — uma das DUAS faculdades jurídicas pioneiras do BR, junto com a de São Paulo. Foi sede da "Escola do Recife" — Tobias Barreto, Sílvio Romero, Clóvis Beviláqua (autor do Código Civil de 1916) e Joaquim Nabuco — uma das mais importantes correntes do pensamento jurídico-filosófico do BR Imperial e Republicano nascente.
Em 15/10/1827, a Lei Provincial nº 6 transferiu a capital de Pernambuco de Olinda para o Recife — capitalidade ininterrupta até hoje (199 anos em 2026). Em 1848-1849, a Revolução Praieira — última revolução liberal-republicana do Império — foi contida em Recife pelo Barão de Caxias.
Século XX — UFPE (1946), Frevo, Porto Digital
Em 11/08/1946, foi federalizada a UFPE — Universidade Federal de Pernambuco (mesmo ano da UFBA), por consolidação de faculdades preexistentes — destacadamente a Faculdade de Direito do Recife (1827). Em 1947, foi federalizada a UFRPE.
A PMPE completou seu bicentenário em 2025 (200 anos — fundada em 03/02/1825). O Frevo — manifestação musical e coreográfica nascida em Recife no início do séc. XX — cristalizou-se como gênero entre 1907 e 1930, e em 05/12/2012 foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. O Galo da Madrugada — bloco fundado em 1978 — foi registrado pelo Guinness Book em 1995 como o maior bloco de Carnaval do mundo (~2,5 milhões de pessoas).
Em 30/03/1989, foi criado o TRF-5 — Tribunal Regional Federal da 5ª Região, com SEDE EM RECIFE e jurisdição sobre PE+AL+CE+PB+RN+SE (6 UFs do NE oriental). Recife é, portanto, a ÚNICA capital do Nordeste do BR a sediar um TRF.
Em 2000, foi fundado o Porto Digital no Bairro do Recife (Recife Antigo) — maior parque tecnológico urbano do BR (~12 mil empregos, ~300 empresas — IBM, Accenture, Dell, Samsung, Stefanini, CESAR). Em 2002, foi restaurada a Sinagoga Kahal Zur Israel como museu — resgate da memória da 1ª sinagoga das Américas.
Tragédia Maio/2022 — chuvas catastróficas
Em maio de 2022, chuvas torrenciais atingiram Recife e RM, com 137 mortes confirmadas por deslizamentos em encostas pobres (Jardim Monte Verde, Ibura — Recife; Bairro Novo — Olinda). Foi a maior tragédia hidrológico-geomorfológica de Recife em 50 anos, gerando massiva jurisprudência indenizatória no TJPE contra Município, Estado e União por omissão na prevenção a deslizamentos.