História
Caxias do Sul — a Pérola das Colônias, capital da imigração italiana matriz do Brasil
Caxias do Sul é a 2ª cidade mais populosa do Rio Grande do Sul, com 463.501 habitantes no Censo 2022 (estimados ~479.599 em 2025 pelo IBGE/TCU), distribuídos em 77 bairros oficiais e 1.652,32 km² — território muito maior, em área, do que a própria capital Porto Alegre. É o coração da Serra Gaúcha, o epicentro da imigração italiana matriz do Brasil e a Capital Nacional dos Ônibus, Caminhões e Implementos Rodoviários. Gentílico: caxiense. PIB per capita 2023 de R$ 81.683,97 — superior ao de Porto Alegre (R$ 78.586,94), anomalia rara entre cidades grandes do BR.
Pré-1875 — Campo dos Bugres e os povos indígenas
Antes de 1875, a área que hoje é Caxias do Sul era denominada Campo dos Bugres — referência aos povos indígenas Kaingang e Xokleng (Macro-Jê) que habitavam a Serra Gaúcha. "Bugre" foi termo pejorativo aplicado pelos colonos posteriores aos indígenas. A toponimia foi substituída quando a colonia italiana foi criada em 1875. A memória indígena é singularidade etnográfica registrada em estudos antropológicos da UCS.
1874-1875 — A Colônia a Fundos de Nova Palmira e a chegada italiana
A história registrada de Caxias do Sul começa em 1874, quando a expedição de Luiz Antônio Feijó Júnior criou um novo núcleo colonial de 15 léguas quadradas ao leste das colônias Conde d'Eu (atual Garibaldi) e Princesa Isabel (atual Bento Gonçalves). A área se chamava Colônia a Fundos de Nova Palmira, com sede inicial em Nova Milano.
Em 20 de maio de 1875 chegaram os primeiros imigrantes italianos — a maioria do Vêneto, mas também trentinos, lombardos, alemães, franceses, espanhóis, poloneses e boêmios — enfrentando a travessia atlântica de cerca de um mês em navios superlotados. Junto com Bento Gonçalves (na mesma data), Caxias do Sul é um dos dois núcleos fundadores da imigração italiana no Brasil. A data é hoje celebrada nacionalmente como o Dia do Imigrante Italiano no Brasil.
Seis nomes em 169 anos — a história na toponímia
A cidade teve seis denominações sucessivas:
- Campo dos Bugres (até 1875) — período indígena/pré-colonial
- Fundos de Nova Palmira (1875-1877) — primeira denominação colonial
- Colônia Caxias (1877-1884) — homenagem a Luís Alves de Lima e Silva, Duque de Caxias, Patrono do Exército Brasileiro
- Santa Teresa de Caxias (1884-1890) — Decreto 9.182/1884, sob invocação de Santa Teresa D'Ávila
- Caxias (1890-1944) — pós-emancipação municipal
- Caxias do Sul (1944-presente) — decreto federal de diferenciação de Caxias/MA
1890 — Emancipação municipal
Em 20 de junho de 1890, o município foi criado, desmembrando-se de São Sebastião do Caí, e instalado em 24 de agosto do mesmo ano. A data 20 de junho é hoje o aniversário oficial da cidade.
1910 — Elevação a Cidade pela Estação Férrea
Em 1º de junho de 1910, com a inauguração da Estação Férrea que ligou a Serra Gaúcha a Porto Alegre, a Vila foi elevada a Cidade. Júlio de Castilhos, em visita anterior em 1890, já havia cunhado o apelido "Pérola das Colônias" que marca a identidade caxiense até hoje.
1881-1931 — Festa Nacional da Uva, uma das mais antigas do BR
Em 1881 — apenas 6 anos após a chegada dos italianos! — já se realizavam festividades informais da uva entre as colônias da Serra Gaúcha. Em 1931, a Prefeitura/Diocese de Caxias organizaram a 1ª Festa Nacional da Uva oficial — uma das festas comunitárias mais antigas do BR. Hoje realizada bienalmente no Parque de Eventos da Festa da Uva, atrai ~500 mil visitantes em cada edição.
1934 — Diocese de Caxias do Sul
Em 1934, foi criada a Diocese de Caxias do Sul (separada da Arquidiocese de Porto Alegre), com Catedral Diocesana de Santa Teresa de Ávila. A Diocese é uma das 18 dioceses da Província Eclesiástica de Porto Alegre, com matriz cultural italiana intensa.
1944 — "Caxias do Sul" — diferenciação de Caxias/MA
Em 1944, decreto federal acrescentou "do Sul" ao nome para diferenciar de Caxias no estado do Maranhão — homônimo igualmente em homenagem ao Duque de Caxias. A renomeação federal de 1944 integrou o esforço varguista de uniformização toponímica nacional.
1949-1962 — A revolução industrial caxiense (Marcopolo, Randon, Agrale)
A revolução industrial-econômica de Caxias do Sul ocorreu em três marcos sucessivos: 1949 — fundação da Marcopolo SA (irmãos Bellini/Martins/Bertasso, descendentes italianos) e da Randon SA (irmãos Randon, descendentes italianos). 1962 — fundação da Agrale (família Sirvinskas, descendentes poloneses-italianos). As três empresas, com sede mundial em Caxias até hoje, transformaram a cidade na Capital Nacional dos Ônibus, Caminhões e Implementos Rodoviários — concentração industrial única no BR.
1967 — UCS — Universidade de Caxias do Sul
Em 1967, foi criada a UCS — Universidade de Caxias do Sul, mantida pela Fundação Universidade de Caxias do Sul (FUCS), com caráter confessional Diocesano. A UCS tornou-se a principal IES privada do interior do RS, com ~25 mil alunos em multicampi (Caxias matriz + Bento Gonçalves, Canela, Farroupilha, Guaporé, Nova Prata, Vacaria, Veranópolis).
2017-2019 — Talian, patrimônio imaterial municipal
Em 2017, o Talian — modalidade linguística derivada da mistura de dialetos vênetos, lombardos e trentinos com o português no cotidiano das colônias — foi oficializado como língua do município (Decreto da Câmara Municipal). Em 10/10/2019, projeto de lei reconheceu o Talian como patrimônio imaterial do município.
2024 — Enchente Maio: impacto regional, papel logístico
Em maio de 2024, durante a enchente catastrófica do RS, Caxias do Sul foi parcialmente afetada (especialmente Vale do Caí, Forqueta, Vila Cristina, Ana Rech), com deslizamentos e enxurradas pontuais. O Vale do Caí (São Sebastião do Caí, vizinho) e o Vale do Taquari foram as regiões mais devastadas. Caxias serviu de base logística para operações de Defesa Civil na Serra Gaúcha, recebendo deslocados e voos comerciais desviados de Porto Alegre (durante o fechamento de 7 meses do Aeroporto Salgado Filho).