História
Pelotas — a Princesa do Sul, Capital Nacional do Doce, matriz luso-açoriano-imperial do RS
Pelotas é a 3ª cidade mais populosa do Rio Grande do Sul, com 325.685 habitantes no Censo 2022 (estimados ~336.150 em 2025 pelo IBGE/TCU), distribuídos em ~50 bairros oficiais e 1.608,78 km². É a maior cidade da Costa Doce (Lagoa dos Patos + Lagoa Mirim + Canal São Gonçalo), polo regional educacional, cultural e institucional do Sul do RS. Princesa do Sul (apelido sec. XIX em referência à riqueza-aristocracia do charque imperial), Capital Nacional do Doce (Patrimônio Cultural Imaterial Federal IPHAN 2018). Gentílico: pelotense. Padroeiro: São Francisco de Paula. PIB per capita 2023: R$ 38.322,06.
1758 — Açorianos, matriz luso-açoriana primeira do RS
Pelotas começa com a imigração açoriana ao Continente de São Pedro a partir de 1758, no contexto do Tratado de Madri de 1750 (delimitação Brasil-Espanha). Lavradores açorianos foram enviados ao Sul-Sul do BR para povoar a fronteira disputada com a Banda Oriental (futuro Uruguai). A matriz luso-açoriana é a primeira do RS — antecede alemães (1824 — Vale dos Sinos), italianos (1875 — Caxias e Bento Gonçalves), pomeranos (sec. XIX — São Lourenço do Sul) e poloneses. Tracos persistentes da matriz açoriana na cultura pelotense: gauchismo, falar pelotense, prática agrícola, religiosidade católica luso-açoriana.
1780 — Primeira charqueada, José Pinto Martins
A história econômica de Pelotas começa em 1780, quando o português José Pinto Martins, que fugia da Grande Seca do Ceará de 1777-1779, fundou às margens do Arroio Pelotas a primeira charqueada da região, valendo-se da abundância de gado nos campos do Pampa e da localização estratégica entre o Canal São Gonçalo (ligação das Lagoas dos Patos e Mirim). A prosperidade do estabelecimento atraiu novos charqueadores e formou o núcleo urbano da futura Pelotas — proto-cidade do ciclo do charque, com proliferação rápida de saladeros sec. XVIII-XIX.
07/07/1812 — Freguesia de São Francisco de Paula
Em 07/07/1812, por iniciativa do Padre Pedro Pereira de Mesquita, foi instituída a Freguesia de São Francisco de Paula — data oficial de fundação da cidade e de seu aniversário até hoje. A evolução administrativa subsequente:
- 07/12/1830: elevação à condição de Vila (decreto de D.
Pedro I), desligando-se da jurisdição de Rio Grande
- 07/04/1832: instalação oficial como Vila de São Francisco
de Paula, com a primeira Câmara Municipal — mesma data que batiza o Theatro Sete de Abril
- 1835: elevação a Cidade com o nome de Pelotas —
sugestão do Deputado Francisco Xavier Pereira, em homenagem às embarcações de varas de corticeira forradas com couro, que serviam à travessia dos rios no auge do ciclo do charque
Séc. XIX — Auge do charque, aristocracia, doces
No século XIX, Pelotas viveu seu auge econômico. O charque (carne-seca) e o couro eram exportados em larga escala para o Nordeste brasileiro (alimentar populações escravizadas) e para a Europa — especialmente a França — pelo porto fluvial-lagunar do Canal São Gonçalo. No ápice do ciclo, o charque chegou a representar até 85% das exportações rio-grandenses. Mão-de-obra: escravizados africanos — Pelotas foi um dos maiores centros escravistas do RS no sec. XIX, matriz de violência institucional contra a população negra.
A riqueza das charqueadas transformou Pelotas em uma das cidades mais prósperas do Brasil imperial. Habitaram a cidade 9 barões, 2 viscondes e 1 conde, o que rendeu à sua sociedade a pecha de "aristocracia do charque" ou "barões da carne-seca". Destaques: Marquês do Erval (Manuel Luís Osório — herói da Batalha do Tuiuti na Guerra do Paraguai 1866, Patrono da Arma de Cavalaria do Exército Brasileiro), Barão de Itapitocai (Miguel Rodrigues Barcellos — 1888), Visconde de Souza Soares (José Álvares de Souza Soares), Barão de Sobral (José Júlio de Albuquerque Barros).
Os navios que levavam charque ao Nordeste voltavam com açúcar, matéria-prima transformada nos casarões pelotenses em doces finos (receitas conventuais portuguesas trazidas pelas famílias da aristocracia) — pasteis de Santa Clara, sonhos, bem-casados, quindins, ambrosias, camafeus, fios de ovos, papos-de-anjo. A tradição se consolidou e rendeu à cidade o título de Capital Nacional do Doce, hoje celebrada na Fenadoce (anual desde 1986) e reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial Federal IPHAN (04/12/2018).
Imigrações sec. XIX-XX — diversidade pelotense
Além dos portugueses-açorianos (matriz fundadora 1758-1812) e dos africanos escravizados (charqueadas sec. XVIII-XIX), Pelotas recebeu levas de imigrantes:
- Alemães e pomeranos (sec. XIX) — Colônia de São Lourenço
do Sul vizinha; Colégio Alemão fundado em 1898
- Franceses — Colônia Francesa de Santo Antônio (zona rural,
com vitivinicultura e agricultura francesa); na zona urbana, presença forte no comércio, educação e cultura
- Italianos — a partir de 1880-1890
1883 — Pioneirismo telefônico no BR
1883 — Pelotas instala o segundo serviço telefônico do BR (após RJ 1881-1882) — pioneirismo tecnológico que reflete o dinamismo econômico do auge do ciclo do charque. Singularidade: Pelotas era cidade-pioneira em modernidade tecnológica no sec. XIX, equiparável a RJ — antes de SP, MG/BH e mesmo Porto Alegre.
1888 — Lei Áurea, fim das charqueadas
Em 1888, a Lei Áurea (assinada por Princesa Isabel em 13/05/1888) aboliu a escravidão no Brasil. Aliada ao advento dos frigoríficos modernos (refrigeração industrial a partir de 1900), a Lei Áurea detonou o declínio rápido das charqueadas pelotenses. Pelotas passou a uma transição econômica difícil, perdendo gradualmente o status de capital econômica do RS para Porto Alegre (capital política) e, depois, Caxias do Sul (polo industrial italiano-imigrante 1875+). Cicada arquetípico do escravismo+economia BR — paradigma para entender outras cidades brasileiras como São João del-Rei/MG, Diamantina/MG, Recife/PE.
15/08/1910 — Diocese de Pelotas
Em 15/08/1910, foi criada a Diocese de Pelotas pela Bula "Praedecessorum nostrorum" do Papa Pio X — Catedral Diocesana de São Francisco de Paula. A Diocese integra a Província Eclesiástica de Porto Alegre. Bispo Diocesano atual: Dom Jacinto Bergmann.
1917 → 2008 — IFSul (Reitoria em Pelotas)
Em 1917, foi fundada a Escola Técnica Federal de Pelotas — uma das mais antigas escolas técnicas do Sul do BR. Em 2008, pela Lei 11.892/2008, foi federalizada em IFSul — Instituto Federal Sul-Rio-Grandense, com Reitoria em Pelotas (Praça XX de Setembro, 455 — Centro). Singularidade: Pelotas é a única cidade do interior do RS a sediar Reitoria de Instituto Federal — IFRS tem Reitoria em Bento Gonçalves; IF Farroupilha tem Reitoria em Santa Maria.
08/08/1969 — UFPel federalizada
Em 08/08/1969, pelo Decreto-Lei 750/1969, foi federalizada a UFPel — Universidade Federal de Pelotas — fusão da Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel (herdeira da Escola Agrícola fundada em 1883), da Faculdade de Direito de Pelotas e da Faculdade de Veterinária. Reitoria: Rua Gomes Carneiro, 01 — Bairro Porto. Marco fundador da Pelotas-pós-charque, consolidada como polo educacional do Sul do RS.
1986 — Fenadoce, Feira Nacional do Doce
Em 1986, foi criada a Fenadoce — Feira Nacional do Doce de Pelotas, anual na ExpoCentro Fernando Ferrari, com ~250 mil visitantes em cada edição. Marca a institucionalização da tradição confeitada pelotense como vitrine econômica-cultural.
04/12/2018 — IPHAN tomba Doces Pelotenses
Em 04/12/2018, o IPHAN inscreve os Doces Tradicionais Pelotenses no Livro de Registro dos Saberes como Patrimônio Cultural Imaterial Federal. Singularidade nacional: Pelotas é a única cidade do BR com tombamento federal IPHAN específico de tradição confeitada urbana.
27/10/2024 — Marroni eleito, fim do ciclo PSDB
Em 27/10/2024, Fernando Marroni (PT), 68 anos, foi eleito prefeito com 50,36% dos votos válidos no 2º turno (87.737 votos), derrotando Marciano Perondi (PL) por apenas 1.263 votos — encerrando ciclo de 12 anos do PSDB (Eduardo Leite 2013-2016 + Paula Mascarenhas 2017-2024). Marroni retornou após 20 anos — já fora prefeito 2001-2004; é deputado federal aposentado (3 mandatos), ex-deputado estadual e ex-diretor-presidente da Trensurb. Posse 01/01/2025.
2024 — Enchente Maio
Em maio de 2024, durante a enchente catastrófica do RS, Pelotas foi atingida em zonas baixas (Bairro Areal, Cohabpel, Três Vendas, Z3) por elevação da Lagoa dos Patos + Canal São Gonçalo. Em menor intensidade que o Vale do Taquari e o Vale do Caí (epicentros), mas com deslocamentos pontuais e impactos na infraestrutura portuária-lagunar. A Defesa Civil de Pelotas atuou em coordenação com a CEDEC-RS.