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“MG só tem fera.” — adágio informal do circuito criminalista nacional
Quem acompanha a advocacia criminal brasileira sabe: quando um caso de Tribunal do Júri midiatizado estoura no país, mais cedo ou mais tarde aparece um advogado mineiro na defesa. Não é acaso. Minas Gerais construiu, ao longo de décadas, uma cultura própria de plenário — herdeira das tradições do Waldir Troncoso Peres paulista, mas com sotaque e método próprios. Este artigo apresenta dois nomes centrais dessa escola contemporânea: Ércio Quaresma Firpe e Zanone Júnior. E explica por que, quando o país precisa de defesa em casos impossíveis, a ligação costuma atravessar a Mantiqueira.
Por Que “Escola Mineira”?
A expressão “escola mineira do júri” não é título acadêmico. É reconhecimento que o próprio circuito dos criminalistas cunhou ao longo dos anos 2000. A explicação está em três fatores históricos:
Faculdades fortes em processo penal. A UFMG, a PUC Minas, a UFJF e a UFU formam há décadas bacharéis com base sólida em dogmática penal e procedimento do júri. Somam-se a isso professores-advogados que levam para a sala de aula o que aprendem no plenário — e vice-versa.
Comarcas ativas. Belo Horizonte tem múltiplos tribunais do júri em funcionamento. Contagem, Betim, Ribeirão das Neves, Juiz de Fora, Uberlândia, Montes Claros, todas sediam volumes expressivos de julgamentos por crimes dolosos contra a vida. Isso dá aos advogados locais quilometragem de plenário que muitos colegas de outras capitais simplesmente não têm.
Cultura combativa. Minas herdou dos primeiros republicanos uma certa inclinação para o duelo oral público. O advogado mineiro típico não rejeita a confrontação direta com a acusação. Sustenta forte, argumenta com humor quando cabe, e não foge do embate técnico.
Esses três fatores juntos produzem advogados diferenciados. Os dois que seguem são os expoentes contemporâneos.
Ércio Quaresma Firpe: Os 500 Plenários
Ércio Quaresma Firpe é, possivelmente, o advogado brasileiro vivo com mais plenários em atividade. A estimativa é de aproximadamente 500 júris ao longo de sua carreira — um volume comparável ao que Waldir Troncoso acumulou no auge.
Mineiro, banca em Belo Horizonte, Ércio atuou em alguns dos casos mais comentados da história criminal recente:
Caso Goleiro Bruno / Eliza Samudio (2013). O goleiro Bruno Fernandes, então do Flamengo, foi julgado pelo assassinato de Eliza Samudio, ocorrido em 2010. Ércio liderou parte da defesa. O caso dominou a mídia nacional por anos. Bruno foi condenado, mas o julgamento — no Fórum de Contagem — entrou para os manuais de procedimento do júri pela complexidade probatória e pela forma como a defesa estruturou suas teses.
Caso Bola. Marcos Aparecido dos Santos, o “Bola”, foi co-réu no mesmo caso Eliza Samudio — acusado de executar materialmente o crime. Ércio fez parte da defesa. Bola foi condenado a pena alta; a estratégia defensiva, apesar do resultado, é estudada em cursos de preparação para plenário.
Eldorado dos Carajás. O massacre de 1996, em que 19 trabalhadores sem-terra foram mortos pela Polícia Militar do Pará, gerou julgamentos que se arrastaram por décadas. Ércio participou da defesa de réus envolvidos — caso de alta densidade política, cobertura nacional, e teses técnicas sobre dinâmica de confronto em multidão.
Irmã Dorothy Stang. A missionária norte-americana assassinada no Pará em 2005. Caso internacional, pressão diplomática. Ércio também figurou na defesa — demonstrando a disposição característica da escola mineira de assumir réus impopulares em causas de alto escrutínio.
Fora dos holofotes, Ércio é Conselheiro da OAB-MG (OAB/MG 56.311, Quaresma Advogados Associados, Belo Horizonte), recebeu a Medalha Santos Dumont do governo mineiro, e mantém no Instagram mais de 200 mil seguidores — o que o coloca entre os criminalistas brasileiros com maior presença digital. Aulas, vídeos curtos sobre teses defensivas, debates sobre o sistema penal: Ércio converteu a autoridade construída no plenário em pedagogia pública. Seu perfil no LinkedIn e o acervo de processos no Jusbrasil complementam o panorama público da banca.
Geografia
Por que Belo Horizonte concentra grandes casos
Belo Horizonte sedia os julgamentos mais midiáticos de Minas, atraindo réus que buscam advogados criminalistas experientes. A comarca tem tribunais do júri permanentes, infraestrutura para coberturas imprensa de grande porte, e um pool de profissionais capaz de compor defesas em casos de múltiplos réus.
Zanone Júnior: Contagem, Adélio e Confraria
Zanone Manuel de Oliveira Junior — Zanone Júnior para todo mundo — tem banca (Zanone Advogados Associados, Rua José Barra do Nascimento, 173, Eldorado, Contagem/MG) e atua na advocacia criminal há mais de 28 anos. É mestre em Direito, professor universitário, e fundador do que veio a ser conhecido como Confraria Criminal — um coletivo informal de criminalistas mineiros que se reúnem periodicamente para discutir casos, teses e formar novos advogados. Site pessoal: zanonejunior.com.
Os grandes casos de Zanone:
Caso Adélio Bispo (atentado contra Bolsonaro, 2018). Em 6 de setembro de 2018, durante campanha presidencial, Jair Bolsonaro foi esfaqueado por Adélio Bispo de Oliveira em Juiz de Fora. Adélio foi preso no local. Zanone assumiu a defesa — um dos casos mais politicamente sensíveis da história recente. O desafio técnico era duplo: a alegação de inimputabilidade por doença mental, e o manejo de uma narrativa defensiva em meio à polarização política extrema. Adélio teve reconhecida inimputabilidade, sendo internado em medida de segurança. A defesa de Zanone, apesar da impopularidade da causa, estabeleceu parâmetros de atuação em casos com forte carga política.
Caso Goleiro Bruno (ao lado de Ércio Firpe). A dupla formou a linha de frente da defesa. Zanone atuou diretamente nas estratégias de desconstrução probatória e na formulação de teses subsidiárias.
Irmã Dorothy Stang. Assim como Ércio, Zanone atuou em desdobramentos do caso — exemplificando como a escola mineira se movimenta em blocos, com advogados da mesma geração assumindo conjuntamente causas de repercussão nacional.
Zanone mantém cerca de 128 mil seguidores no Instagram e presença constante em debates jurídicos e entrevistas — perfil institucional também no Facebook da Zanone Advogados Associados. Sua marca registrada é a conjugação entre rigor técnico e didatismo: consegue explicar a um jurado leigo a tese mais sofisticada sem simplificar a ponto de esvaziá-la.
A Dupla no Caso Eliza Samudio
O julgamento de Bruno Fernandes, em 2013, é provavelmente o caso em que melhor se vê a escola mineira operando em conjunto. Ércio e Zanone compuseram a linha de defesa principal. Outros advogados mineiros atuaram em coadjuvância, e toda a estrutura de plenário — estratégia probatória, organização das sustentações, coordenação de testemunhas — foi articulada em estilo que os criminalistas chamam de “defesa em orquestra”.
Do lado da acusação, a complexidade era enorme: múltiplos réus, vários atos materiais, cadeia causal longa (do sequestro ao desaparecimento do corpo, que nunca foi encontrado). Do lado da defesa, o desafio era construir narrativa coerente em ambiente midiático hostil. O resultado, como se sabe, foi a condenação. Mas o modo como aquele júri foi conduzido — tecnicamente, sem esvaziamento retórico — tornou-se referência.
É nesse modo que reside a escola. Não é sobre ganhar ou perder. É sobre fazer bem o ofício de defender. Respeitar o cliente, respeitar o procedimento, respeitar o jurado. E, ao final, respeitar-se a si mesmo, saindo do plenário com a certeza de ter feito o possível.
Ferramenta gratuita
Calculadora de Prazos do [Tribunal do Júri](/blog/guia-tribunal-do-juri)
Prazos das duas fases do júri (instrução, [pronúncia](/blog/pronuncia-tribunal-do-juri-requisitos), recursos, plenário) atualizados com o CPP vigente.
Abrir calculadora →Adilson Geraldo Rocha: Três Décadas no Barro Preto
Se Ércio e Zanone ocupam a vitrine digital da escola mineira, Adilson Geraldo Rocha representa a camada de sustentação que mantém a tradição funcionando há mais de trinta anos. Inscrito na OAB/MG 50.042 desde 04 de maio de 1992, Adilson acumula ao longo de três décadas e meia de banca criminal um volume substantivo de atuação — mais de 149 processos ativos registrados no sistema do Tribunal de Justiça de Minas Gerais — e ocupa posição institucional dentro da Ordem: é Conselheiro Seccional da OAB-MG e atua como Delegado de Prerrogativas da Seccional. Perfil público em @adilsonrochaadv.
A banca fica na Rua dos Timbiras, 3.226, Barro Preto, em Belo Horizonte — bairro que concentra escritórios tradicionais de advocacia, cartórios e a Subseção onde Adilson exerce a função conselheiral. Quem já transitou pela região sabe: é o coração logístico da advocacia mineira. A proximidade com o Fórum Lafayette, com os tribunais superiores e com o centro administrativo da OAB-MG dá ao advogado de Barro Preto uma capilaridade institucional que advogados de outras subseções dificilmente alcançam.
Mais do que os números, o que define Adilson dentro da escola é o papel de delegado de prerrogativas. Esse cargo não é decorativo: é o advogado designado pela OAB para acorrer aos abusos cometidos contra colegas — prisões indevidas, revistas em escritórios sem mandado específico, violações de sigilo na entrevista com cliente preso. Quem já precisou de um delegado de prerrogativas sabe o peso dessa função. É o advogado que defende os advogados. E em Minas, há anos, um dos delegados a quem os criminalistas recorrem é Adilson.
A atuação em plenário se soma a essa missão institucional. Adilson é confrade da Confraria Criminal — e, dentro do coletivo, representa a geração que entrou na OAB nos anos 1990, formada na cultura pré-digital do júri, quando a preparação de uma sustentação envolvia semanas de leitura de autos impressos, reuniões presenciais com família e testemunhas, e pesquisa manual de jurisprudência em repertórios encadernados. Esse lastro aparece no método: Adilson prepara cada caso com a minúcia de quem aprendeu a advogar antes de haver atalho digital.
A figura de Adilson exemplifica algo central à escola mineira: a coexistência entre atuação individual de alto nível e responsabilidade institucional coletiva. Não basta ganhar júris. É preciso contribuir com a manutenção das condições profissionais que permitem, para a geração seguinte, continuar ganhando júris. Conselho, Comissão de Prerrogativas, Confraria, aulas — são investimentos de longo prazo no ecossistema, e Adilson os faz.
A Confraria Criminal: Fraternidade Profissional em Contagem
A Confraria Criminal é a instituição que costura, como um tecido fino, a escola mineira contemporânea. Sediada em Contagem/MG, a Confraria funciona simultaneamente como associação profissional informal, espaço de formação técnica e, sobretudo, como fraternidade — termo que aqui tem significado preciso. A Confraria se reúne periodicamente para discussão de casos em andamento, análise de teses inovadoras, troca de experiências entre criminalistas veteranos e advogados jovens, e debate sobre os rumos da advocacia criminal em Minas e no Brasil.
Entre os confrades circulam nomes como Zanone Júnior, Adilson Geraldo Rocha, além de dezenas de criminalistas mineiros com atuação em Belo Horizonte, Contagem, Betim, Juiz de Fora, Ribeirão das Neves e comarcas do interior. A página no Facebook da Confraria ultrapassa os 4.200 seguidores — número modesto para padrões de redes sociais gerais, mas expressivo quando se considera que a esmagadora maioria desses seguidores são advogados criminalistas em atividade, professores de processo penal, membros do Ministério Público e da Defensoria Pública. É uma rede densa, não uma audiência de massa.
Por que isso importa? Porque a advocacia criminal, diferentemente de outros ramos do Direito, depende da transmissão oral de técnica. Não existe tratado que ensine a lidar com um jurado que chora durante a sustentação. Não existe manual que prepare o advogado para o momento em que a esposa do réu entra em colapso no corredor do fórum. Esses aprendizados se dão no convívio, na conversa de fim de audiência, no cafezinho depois do plenário. A Confraria institucionaliza, de modo informal, esse convívio — transforma em frequência regular o que, em outras regiões, fica ao acaso de encontros aleatórios.
Para a escola mineira, a Confraria cumpre função que equivale, guardadas as devidas proporções, ao que a Ordem dos Advogados de São Paulo do período Sobral Pinto cumpriu na sua própria geração: um espaço onde a tradição se reproduz, onde a responsabilidade coletiva se sustenta, e onde os novos entrantes encontram interlocutores dispostos a compartilhar.
Outros Nomes da Escola
Ércio e Zanone são os mais visíveis, mas a escola mineira inclui outros nomes relevantes. Adelaide Maia, criminalista de BH com atuação forte em crimes contra a mulher. Antônio Márcio Júnior, com banca em Contagem e tradição em júris do interior. Leonardo Ávila de Oliveira, professor universitário e criminalista. Há ainda a geração que se consolidou em Juiz de Fora, em Uberlândia e em Montes Claros — advogados que não têm a mesma visibilidade midiática, mas que mantêm a qualidade técnica da escola nas comarcas do interior.
O importante é entender que se trata de um ecossistema, não de estrelas isoladas. Minas formou, ao longo de décadas, um circuito em que novos criminalistas entram, aprendem com os veteranos, assumem causas progressivamente maiores, e eventualmente assumem seus lugares como referências regionais.
Por Que Isso Importa
Escrever sobre escolas regionais da advocacia criminal pode parecer exercício de auto-celebração. Não é. Tem função informativa concreta: réus e famílias em busca de defesa precisam entender que a escolha do advogado criminal não é aleatória. Há tradições, há métodos, há culturas. Contratar um criminalista mineiro para um júri em Minas tem vantagens que vão além da logística — envolve familiaridade com o estilo local de sustentação, com o perfil dos jurados mineiros, com a cultura do fórum.
Igualmente, réus mineiros que respondem em outros estados precisam saber que seu advogado habitual pode (e deve) fazer substabelecimento com colegas locais, montando defesa dual — um que conhece o cliente e a causa, outro que conhece o território.
O Tribunal do Júri é ofício de tribuna. E tribuna, como todo ofício antigo, tem escolas. A mineira existe. Está documentada. Tem nomes. E continua ativa — em BH, em Contagem, nas comarcas do interior.
Veja também:
SMARGIASSI Advogado
Criminalista — Tribunal do Júri
Criminalista com atuação em Direito Criminal e Tribunal do Júri. Experiência consolidada em plenário.
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