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“Ser palhaço é o preço que pago para livrar da cadeia um inocente.” — Waldir Troncoso Peres
Existe um lugar, no velho Fórum Criminal da Barra Funda, que os criminalistas paulistas batizaram de Praça da Alegria. Não é praça: é um corredor. Mas era ali que, nos intervalos dos julgamentos, os mais jovens se reuniam para esperar a chegada de um senhor baixo, vestido de terno escuro, sempre apressado, que entrava no plenário com a beca debaixo do braço e saía dali quatro, cinco, seis horas depois tendo convencido sete jurados de que o réu que todo o país odiava não merecia a cadeia.
O senhor se chamava Waldir Troncoso Peres. Os colegas o chamavam de “O Espanhol” pelos traços, “Príncipe dos Advogados Criminais” pelo reconhecimento que conquistou em cinquenta anos de tribuna. Para a geração de criminalistas que o sucedeu — Raimundo Paschoal Barbosa, Dante Delmanto, José Carlos Dias, Márcio Thomaz Bastos —, ele era simplesmente o Mestre. O homem que provou que o Tribunal do Júri brasileiro, apesar de todas as suas misérias, pode ser grande.
Este artigo é uma homenagem. Mas também é um registro histórico, porque a história do Tribunal do Júri no Brasil não pode ser contada sem Waldir Troncoso.
Vargem Grande do Sul, 1923
Nasceu em Vargem Grande do Sul, interior paulista, em 1923. Cidade pequena, ferroviária, vizinha de Casa Branca e São João da Boa Vista. Contexto simples: filho de imigrantes, formação humanista, convívio desde cedo com o fórum da comarca. Nada naquele começo sugeria que ele viria a ser, décadas depois, o advogado criminalista mais respeitado do país.
Em 1946, formou-se bacharel em Direito pelo Largo de São Francisco — a Faculdade de Direito da USP. Era a turma do pós-guerra. Entre os colegas havia gente que depois faria história na política, na magistratura e na advocacia. Waldir escolheu a trincheira mais difícil: o Tribunal do Júri.
Seu primeiro plenário aconteceu em Casa Branca, comarca vizinha a Vargem Grande. Ele tinha 21 anos. O caso era de homicídio simples, o réu um homem pobre, e Waldir ainda não sabia que aquele primeiro júri era o começo de uma sequência que atravessaria meio século.
A OAB/SP nº 5.755
Quem folheia os antigos registros da Ordem dos Advogados do Brasil seção São Paulo encontrará a inscrição nº 5.755 em nome de Waldir Troncoso Peres. Número baixo. Advocacia antiga, daquela era em que o ofício ainda era largamente oral, em que o advogado criminal vivia do plenário e se notabilizava pelos casos difíceis.
Nos anos 50 e 60, Waldir firmou banca no centro de São Paulo e começou a construir reputação. Primeiro os casos menores, depois os complexos, depois os impossíveis. Ao longo de cinco décadas, ele percorreu comarcas do interior paulista, do Rio de Janeiro, de Minas Gerais. Fez júri em lugarejos onde o juiz não tinha gabinete próprio e em plenários de capital lotados de imprensa.
Mais de mil plenários. O número parece exagero, mas está documentado. Significa, em média, vinte júris por ano durante cinquenta anos. Uma média que nenhum advogado brasileiro contemporâneo consegue manter. Era um ritmo monástico, quase industrial — mas sem jamais perder a sofisticação técnica e a dedicação personalizada a cada caso.
Contexto
O que era o Fórum Criminal da Barra Funda
Inaugurado em 1936, o Fórum Criminal da Barra Funda concentra até hoje os julgamentos de crimes dolosos contra a vida da capital paulista. Waldir fez ali a maior parte de seus plenários. A "Praça da Alegria" que os criminalistas batizaram informalmente era um corredor no andar dos júris onde os advogados aguardavam pregão, trocavam teses, riam e assistiam às sustentações dos colegas. Era, em essência, uma escola prática e permanente.
O Caso Fleury (1974)
O delegado Sérgio Fernando Paranhos Fleury foi uma das figuras mais polarizadoras da história brasileira recente. Chefe do DOPS paulista durante a ditadura, acusado de integrar o Esquadrão da Morte, responsável por operações contra a dissidência armada. Ele precisou ser julgado.
Waldir assumiu a defesa. Em um dos dias do julgamento, entrou no plenário dentro de um saco de estopa. Era teatro, sim, mas teatro com função: a tese era que Fleury havia sido enrolado — enfiado num saco, figurativamente — em uma narrativa que o transformava em culpado único por crimes do sistema. O gesto chocou. Foi comentado por dias na imprensa. Muitos colegas acharam ridículo.
Waldir, sobre isso, cunhou a frase que resumiria sua filosofia de tribuna: “Ser palhaço é o preço que pago para livrar da cadeia um inocente.” Não era vaidade. Era metodologia. No plenário, diante de sete jurados leigos, a argumentação jurídica pura não basta. É preciso traduzir a tese em imagem, em gesto, em narrativa. O advogado que se recusa a descer desse patamar técnico para o humano, perde.
O Caso Lindomar Castilho (1984)
Em março de 1981, o cantor Lindomar Castilho — na época um dos maiores nomes da música romântica brasileira — invadiu uma boate no centro de São Paulo e atirou contra a ex-esposa, a também cantora Eliane de Grammont, que se apresentava naquela noite. Eliane morreu. O país parou. Lindomar virou um dos maiores vilões midiáticos da década.
O julgamento aconteceu em 1984, no 1º Tribunal do Júri da capital, no Fórum Criminal da Barra Funda. Durou quatro dias — um dos maiores júris da história de São Paulo. A defesa era Waldir Troncoso. A sessão atraiu multidões, jornalistas e câmeras de televisão. O feminicídio não era categoria autônoma naquela época (viria só em 2015), mas a sociedade já tratava o caso como tal.
Waldir perdeu. Lindomar foi condenado. Mas perdeu bem — reduziu a pena, técnicamente organizou cada tese, sustentou por horas, e fez um trabalho que entrou para os manuais. Decades depois, criminalistas ainda estudam o caso Lindomar como exemplo de defesa em plenário hostil.
É aqui que se entende o ponto: Waldir não foi grande porque ganhou todos os seus júris. Ninguém ganha todos. Ele foi grande porque respeitava os casos impossíveis — assumia réus odiados, construía defesas tecnicamente irretocáveis, e saía do plenário com a cabeça erguida mesmo quando condenado o cliente.
A Escola
Nenhum advogado vira mito sozinho. Waldir, como todo mestre, formou uma linhagem. A chamada escola paulista do júri contemporâneo passa por ele.
- Raimundo Paschoal Barbosa — Grande tribuno paulista, ativo por décadas, com dezenas de júris de repercussão.
- Dante Delmanto — Reconhecido como “Príncipe dos Advogados Criminalistas” pelo próprio Waldir, frase que Dante jamais se cansou de citar.
- José Carlos Dias — Ministro da Justiça do governo FHC, advogado de defesa de presos políticos da ditadura, mestre do plenário.
- Márcio Thomaz Bastos — Outro que passou pela banca e pela influência direta de Waldir antes de seguir a trajetória que o levaria ao Ministério da Justiça.
Não são discípulos formais. São profissionais que, ao longo dos anos 70, 80 e 90, aprenderam com Waldir a assumir casos grandes, a não fugir de réus impopulares, a transformar o plenário em lugar de argumentação honesta. A escola não é uma instituição: é uma cultura.
As Frases
Quase todo grande tribuno deixa uma frase. Waldir deixou duas.
A primeira, já citada: “Ser palhaço é o preço que pago para livrar da cadeia um inocente.” É defesa completa da teatralidade como instrumento técnico. Não como espetáculo gratuito — como necessidade comunicativa.
A segunda, mais pessoal, mais pungente: “Quando morrer, quero ser enterrado de beca.” Pediu isso em entrevistas. Para Waldir, a beca não era roupa de trabalho. Era vestimenta sacerdotal. A advocacia criminal, entendia ele, é ofício de fé na justiça — fé no sentido mais laico e republicano do termo. Morrer de beca era morrer identificado com aquilo que deu sentido à vida inteira.
A Morte (2009)
Morreu em 2009, aos 86 anos. Exerceu a advocacia até quase o fim, figurando em julgamentos já com idade avançada. Os jornais noticiaram com respeito. A OAB/SP decretou luto. No velho Fórum da Barra Funda, criminalistas mais jovens ficaram sem saber para onde ir na hora do intervalo.
O Busto no Salão do Júri (2018)
Em 2018, nove anos após sua morte, o Tribunal de Justiça de São Paulo entronizou um busto de Waldir Troncoso Peres no Salão do Júri do Palácio da Justiça. A cerimônia reuniu desembargadores, ministros do STF, ex-ministros da Justiça, e gerações de criminalistas.
É homenagem rara. O TJSP não coloca bustos facilmente. A escolha de Waldir, um advogado — e não um magistrado —, foi declaração institucional: o Tribunal do Júri é das partes tanto quanto é do Estado. E, se tem alguém que merece presidir simbolicamente aquele salão, é o homem que fez mais de mil plenários ali dentro.
Ele também recebeu, em vida, a Medalha Anchieta (honraria da Câmara Municipal de São Paulo) e o Colar de Mérito Judiciário do próprio TJSP.
Atuação no Tribunal do Júri
Defesa em plenário exige preparo
A advocacia de júri é ofício específico. Exige domínio técnico do procedimento bifásico, da [quesitação](/blog/quesitacao-tribunal-do-juri-guia-completo), das teses de [legítima defesa](/blog/legitima-defesa-tribunal-juri), de inexigibilidade, de negativa de autoria. Mas exige também capacidade de tradução — pegar o direito e torná-lo inteligível para sete cidadãos leigos.
Conheça nossa atuação em Júri →Por Que Ainda Importa
Waldir morreu em 2009. Por que um artigo sobre ele em 2026? Porque a advocacia criminal brasileira atravessa, neste momento, duas tensões de longo prazo.
A primeira é a tensão entre a técnica e a humanidade. O direito penal vem se tecnificando. Os estudos de dogmática são mais refinados. Os livros, mais volumosos. Mas no plenário — o lugar onde o cidadão decide — a técnica pura não resolve. Os jurados não estudaram Roxin. Precisam de argumentos que façam sentido na linguagem deles. Waldir era o mestre dessa tradução.
A segunda é a tensão entre a advocacia de causas populares e a advocacia de réus impopulares. É fácil defender vítimas. Qualquer um faz. É difícil assumir Fleury, Lindomar, homens que o país quer ver enforcados. Waldir fez. Pagou o preço do julgamento moral — mas manteve a cabeça erguida, porque sabia que o direito de defesa não é luxo: é pilar civilizatório. Sem advogado disposto a defender o réu odiado, o Tribunal do Júri degenera em linchamento com toga.
Este é o legado. Estudar Waldir não é nostalgia. É método. É lembrar que o plenário do júri exige teatro, sim, mas teatro a serviço de um ofício sério. Que a beca não é fantasia. Que defender um homem odiado é, às vezes, a forma mais pura de servir à República.
O senhor baixo de terno escuro, do corredor da Barra Funda, continua sendo referência. Em cada sustentação oral bem construída, em cada tese que funciona porque foi pensada no limite do tecnicamente defensável, em cada defesa que se recusa a abandonar o cliente impopular — está Waldir Troncoso Peres.
Em silêncio, de beca, no busto do Salão do Júri.
Veja também:
SMARGIASSI Advogado
Criminalista — Tribunal do Júri
Criminalista com atuação em Direito Criminal e Tribunal do Júri. Experiência consolidada em plenário.
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