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“Não há pena sem sentença condenatória transitada em julgado; a prisão cautelar é exceção que se justifica por necessidade, não por gravidade abstrata.”. Guilherme de Souza Nucci
Preso é culpado? A Constituição diz que não. Ainda assim, a prisão cautelar de uma pessoa acusada de homicídio doloso continua gerando perplexidade em parte da sociedade e, o que é pior, em parte do próprio Judiciário. Muitos acreditam, equivocadamente, que quem é preso em flagrante por homicídio deve permanecer preso até o julgamento pelo Tribunal do Júri. Essa percepção, embora compreensível do ponto de vista emocional, não encontra respaldo na Constituição Federal nem na legislação processual penal brasileira.
A liberdade provisória em crimes de homicídio é possível, e a sua concessão depende de análise criteriosa dos requisitos legais, da jurisprudência consolidada dos tribunais superiores e da atuação técnica da defesa. Neste artigo, examinamos em profundidade os fundamentos jurídicos, as hipóteses de cabimento, as estratégias defensivas e os entendimentos do STJ e do STF sobre o tema.
O conceito de liberdade provisória no processo penal
A liberdade provisória é um instituto do processo penal que permite ao acusado responder ao processo em liberdade, ainda que tenha sido preso em flagrante delito. Está prevista nos artigos 310, 312 e 321 do Código de Processo Penal, com a redação dada pela Lei 13.964/2019 (Pacote Anticrime), e constitui desdobramento direto do princípio constitucional da presunção de inocência, previsto no art. 5, LVII, da Constituição Federal.
É que o sistema processual penal brasileiro parte de uma premissa que muitos parecem ter esquecido: a liberdade é a regra e a prisão cautelar é a exceção. A prisão antes do trânsito em julgado da sentença condenatória somente se justifica quando presentes os requisitos legais que a fundamentam — e esses requisitos devem ser demonstrados concretamente pelo juiz, mediante decisão fundamentada. Sem fundamentação concreta, não há prisão legítima.
Os artigos fundamentais
Art. 310 do CPP — Estabelece que, ao receber o auto de prisão em flagrante, o juiz deve, fundamentadamente: (I) relaxar a prisão ilegal; (II) converter o flagrante em prisão preventiva, quando presentes os requisitos do art. 312 e se revelarem inadequadas ou insuficientes as medidas cautelares diversas da prisão; ou (III) conceder liberdade provisória, com ou sem fiança.
Art. 312 do CPP — Define os fundamentos da prisão preventiva: garantia da ordem pública, garantia da ordem econômica, conveniência da instrução criminal e garantia de aplicação da lei penal. Exige, ainda, prova da existência do crime e indício suficiente de autoria e de perigo gerado pelo estado de liberdade do imputado.
Art. 321 do CPP — Determina que, ausentes os requisitos do art. 312, o juiz deve conceder liberdade provisória, impondo, se for o caso, as medidas cautelares previstas no art. 319 do CPP.
Homicídio doloso e a presunção de necessidade da prisão
Durante muitas décadas, vigorou no Brasil a cultura jurídica de que crimes hediondos ou equiparados, entre os quais se inclui o homicídio qualificado, não admitiriam liberdade provisória. Essa interpretação decorria da antiga redação do art. 2, II, da Lei 8.072/1990 (Lei dos Crimes Hediondos), que vedava expressamente a concessão de liberdade provisória para esses delitos.
Ora, o Supremo Tribunal Federal, em diversos julgados, declarou a inconstitucionalidade dessa vedação abstrata. O entendimento que prevaleceu — e que hoje é pacífico — é o de que a gravidade abstrata do crime, por si só, não justifica a prisão preventiva. É necessário que o juiz demonstre, com base em elementos concretos do caso, a presença dos requisitos do art. 312 do CPP. Dizer que “homicídio é crime grave” não é fundamentar. É repetir o óbvio sem decidir nada.
O homicídio simples e o homicídio qualificado
A distinção entre as duas modalidades importa para fins de análise da liberdade provisória:
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Homicídio simples (art. 121, caput, CP): pena de reclusão de 6 a 20 anos. Não é crime hediondo, salvo quando praticado em atividade típica de grupo de extermínio. A inafiançabilidade prevista na Lei dos Crimes Hediondos não se aplica, de modo que a liberdade provisória com fiança é, em tese, cabível.
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Homicídio qualificado (art. 121, §2, CP): pena de reclusão de 12 a 30 anos. É crime hediondo (art. 1, I, da Lei 8.072/90), portanto inafiançável. No entanto, inafiançabilidade não significa impossibilidade de liberdade provisória. A liberdade pode ser concedida sem fiança, quando ausentes os requisitos da preventiva.
Essa distinção é basilar: muitos operadores do direito, inclusive magistrados, ainda confundem inafiançabilidade com impossibilidade de liberdade provisória. São conceitos distintos. A inafiançabilidade impede a concessão de fiança, mas não impede a concessão de liberdade provisória sem fiança, desde que não estejam presentes os pressupostos da prisão preventiva. Confundir os dois é erro primário com consequências gravíssimas.
A tentativa de homicídio e a liberdade provisória
A tentativa de homicídio (art. 121 c/c art. 14, II, do CP) segue exatamente os mesmos parâmetros da forma consumada no que tange à análise da prisão cautelar. O fato de a vítima ter sobrevivido não torna automaticamente menos grave o crime para fins de cautelaridade, mas também não autoriza a manutenção automática da prisão.
Na prática, porém, os casos de tentativa de homicídio frequentemente apresentam cenários mais favoráveis à concessão da liberdade provisória. Por quê?
- A ausência de resultado morte pode ser considerada na avaliação da proporcionalidade da medida cautelar.
- Se a vítima já se recuperou e não há risco concreto de reiteração delitiva, o fundamento da garantia da ordem pública se enfraquece.
- Se o acusado não tinha antecedentes e o fato ocorreu em contexto isolado (briga, discussão), os requisitos da preventiva podem não estar presentes.
Os tribunais superiores têm decidido reiteradamente que a tentativa de homicídio, por si só, não é fundamento idôneo para a prisão preventiva. É necessário que o juiz aponte elementos concretos que justifiquem a custódia cautelar.
Legítima defesa e prisão cautelar
Um dos cenários mais frequentes na prática forense envolve o agente que alega ter agido em legítima defesa e é preso em flagrante. Nesses casos, a análise da liberdade provisória ganha contornos especiais, pois a eventual excludente de ilicitude deve ser considerada já na fase cautelar.
Relaxamento do flagrante por legítima defesa
Se, na audiência de custódia, há elementos robustos indicando que o agente agiu em legítima defesa — como depoimentos de testemunhas presenciais, imagens de câmeras de segurança ou laudo pericial compatível com a versão defensiva —, o juiz pode relaxar a prisão por entender que a situação fática não configura, sequer em tese, conduta ilícita.
Na prática, essa hipótese é rara, pois os juízes costumam entender que a análise da excludente depende de instrução probatória mais aprofundada. No entanto, quando os elementos são inequívocos, o relaxamento é medida que se impõe.
Liberdade provisória e tese de legítima defesa
Veja-se: ainda que o juiz não relaxe o flagrante por legítima defesa, a existência de fortes indícios dessa excludente pode fundamentar a concessão de liberdade provisória. Se há probabilidade razoável de que o agente será absolvido pelo Tribunal do Júri por legítima defesa, a manutenção da prisão preventiva se torna desproporcional. Prender alguém que provavelmente será absolvido é antecipar pena que possivelmente nunca virá.
O STJ já decidiu que a existência de indícios consistentes de legítima defesa constitui elemento relevante para a análise da necessidade da prisão preventiva, devendo ser considerada na ponderação dos requisitos do art. 312 do CPP.
A audiência de custódia
A audiência de custódia, prevista no art. 310 do CPP e regulamentada pela Resolução 213/2015 do CNJ, é o primeiro momento processual em que a questão da liberdade provisória é analisada. Deve ser realizada no prazo máximo de 24 horas após a prisão em flagrante.
Na audiência de custódia, o juiz deve:
- Verificar a legalidade da prisão e a integridade física do preso.
- Ouvir o preso e seu defensor.
- Decidir sobre a conversão do flagrante em preventiva, a concessão de liberdade provisória ou o relaxamento da prisão.
Para a defesa em casos de homicídio, a audiência de custódia representa uma oportunidade estratégica de primeira importância. É nesse momento que o defensor deve apresentar, de forma clara e documentada, os elementos que demonstram a desnecessidade da prisão preventiva:
- Comprovação de residência fixa e vínculos com o distrito da culpa.
- Documento de exercício de atividade lícita (emprego, empresa, profissão liberal).
- Ausência de antecedentes criminais.
- Elementos que indiquem que o fato ocorreu em circunstâncias excepcionais e que não há risco de reiteração.
- Quando aplicável, elementos que sustentem a tese de legítima defesa.
Relaxamento, revogação e liberdade provisória: distinções essenciais
Na prática forense, três institutos são frequentemente confundidos, embora tenham pressupostos e consequências distintos. O relaxamento da prisão (art. 310, I, CPP) ocorre quando a prisão em flagrante é ilegal, seja por vício formal, seja por ausência de situação flagrancial. O relaxamento não exige análise de cautelaridade: se a prisão é ilegal, deve ser relaxada. Ponto. Já a revogação da prisão preventiva (art. 316, CPP) pressupõe que a preventiva foi legalmente decretada, mas que os fundamentos que a justificavam deixaram de existir. A revogação é medida dinâmica: o juiz deve revisar periodicamente a necessidade da cautelar, a cada 90 dias. A liberdade provisória, por sua vez, é concedida quando o flagrante é legal, mas não estão presentes os requisitos para a conversão em preventiva. O acusado é solto, com ou sem fiança, podendo ser submetido a medidas cautelares diversas.
Compreender essas distinções é fundamental para a escolha do instrumento processual adequado. O advogado que pede liberdade provisória quando o caso é de relaxamento perde tempo e pode perder a oportunidade de uma soltura imediata. Da mesma forma, quando a preventiva perde seus fundamentos durante a instrução, o caminho é a revogação, não a liberdade provisória. Para um panorama completo sobre a utilização do habeas corpus criminal como instrumento de impugnação dessas decisões, recomendamos a leitura do nosso guia específico.
O habeas corpus como instrumento de liberdade
Quando a liberdade provisória é negada na audiência de custódia ou durante a instrução processual, a defesa pode se valer do habeas corpus para impugnar a decisão que mantém a prisão preventiva. O habeas corpus é remédio constitucional (art. 5, LXVIII, CF) que tutela a liberdade de locomoção e pode ser impetrado perante o Tribunal de Justiça, o Superior Tribunal de Justiça ou o Supremo Tribunal Federal, conforme a competência.
Fundamentos para o habeas corpus em homicídio
Os fundamentos mais frequentes para a impetração de habeas corpus contra a prisão preventiva em homicídios são:
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Ausência de fundamentação idônea: a decisão que decreta ou mantém a preventiva deve ser concretamente fundamentada. Decisões genéricas, que se limitam a invocar a gravidade abstrata do crime ou a repercussão social do fato, são ilegais e podem ser cassadas via habeas corpus.
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Ausência dos requisitos do art. 312 do CPP: se o juiz não demonstrou concretamente a presença de pelo menos um dos fundamentos legais (garantia da ordem pública, conveniência da instrução, aplicação da lei penal), a prisão é ilegal.
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Excesso de prazo: a prisão preventiva deve ter duração razoável. Embora o CPP não estabeleça prazo máximo expresso para a preventiva, os tribunais superiores consideram abusiva a manutenção de prisão cautelar por tempo desarrazoado, especialmente quando a demora na instrução não é imputável à defesa.
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Condições pessoais favoráveis: réu primário, com residência fixa, trabalho lícito e sem histórico de fuga pode ter reconhecido o direito à liberdade provisória via habeas corpus.
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Possibilidade de aplicação de medidas cautelares diversas: o art. 319 do CPP prevê um catálogo de medidas alternativas à prisão (comparecimento periódico em juízo, proibição de contato com a vítima, proibição de ausentar-se da comarca, monitoramento eletrônico, entre outras). Se essas medidas são suficientes para acautelar o processo, a prisão é desnecessária e desproporcional.
O excesso de prazo na prisão preventiva
O excesso de prazo é uma das causas mais frequentes de concessão de liberdade provisória em crimes de homicídio. Quando o réu está preso preventivamente e o processo se arrasta por meses ou anos sem que a instrução seja concluída, configura-se constrangimento ilegal por excesso de prazo.
Parâmetros jurisprudenciais
Os tribunais superiores adotam parâmetros razoáveis para a duração da prisão preventiva, embora reconheçam que não existe prazo fixo e absoluto. Na prática, são considerados:
- 81 dias como referência para a conclusão da instrução criminal (soma dos prazos individuais do CPP), embora esse prazo seja mera referência e não limite rígido.
- A razoabilidade global da duração do processo, considerando a complexidade do caso, o número de réus e a necessidade de diligências.
- A contribuição de cada parte para a demora processual — se a defesa deu causa ao atraso, o excesso de prazo não pode ser invocado em seu favor.
O STJ possui jurisprudência consolidada no sentido de que o excesso de prazo deve ser analisado à luz do princípio da razoabilidade, levando em conta as particularidades do caso concreto. Não se trata de cálculo aritmético de prazos, mas de avaliação global da duração do processo e das razões do atraso.
Impacto no processo de homicídio
Nos processos de homicídio doloso, a instrução costuma ser mais longa do que em outros crimes, em razão da complexidade probatória e do procedimento bifásico (judicium accusationis e judicium causae). Após a pronúncia, ainda é necessário aguardar a inclusão em pauta para julgamento pelo Tribunal do Júri, o que pode demorar meses adicionais, especialmente em comarcas com grande volume de processos.
Essa realidade torna o excesso de prazo particularmente relevante nos homicídios. Não são raros os casos em que o réu permanece preso preventivamente por dois, três ou até quatro anos antes de ser julgado pelo júri. Quatro anos preso sem condenação. Ora, nessas situações, a impetração de habeas corpus por excesso de prazo é medida não apenas legítima, mas necessária para a tutela do direito à liberdade.
A jurisprudência do STJ e do STF
Os entendimentos dos tribunais superiores sobre liberdade provisória em homicídio evoluíram significativamente nas últimas duas décadas. A tendência consolidada é de respeito à individualização da análise cautelar, afastando-se de presunções genéricas de necessidade da prisão.
Principais teses firmadas
A gravidade abstrata do crime não justifica a preventiva. O STF e o STJ reiteraram, em inúmeros julgados, que a mera invocação da gravidade do homicídio doloso, desacompanhada de elementos concretos, não é fundamento idôneo para a prisão preventiva. A decisão deve indicar fatos específicos que demonstrem o perigo concreto da liberdade do réu.
A hediondez do crime não impede a liberdade provisória. O fato de o homicídio qualificado ser crime hediondo não significa que a prisão preventiva seja automática ou obrigatória. A vedação de liberdade provisória para crimes hediondos foi declarada inconstitucional pelo STF.
Condições pessoais favoráveis devem ser consideradas. Réu primário, com bons antecedentes, residência fixa e ocupação lícita tem direito a que essas circunstâncias sejam efetivamente ponderadas na decisão sobre a cautelar. Não se trata de garantia automática de liberdade, mas de elementos que devem integrar a fundamentação.
O clamor público não é fundamento para a preventiva. A repercussão social ou midiática do crime, por si só, não configura fundamento para a garantia da ordem pública. O conceito de ordem pública, para fins cautelares, exige demonstração de periculosidade concreta do agente, risco de reiteração delitiva ou circunstâncias que efetivamente perturbem a paz social de forma objetiva. Manchete de jornal não é prova de periculosidade.
A fuga do distrito da culpa é fundamento para a preventiva. A fuga do acusado após o fato é, por outro lado, fundamento concreto e legítimo para a decretação da preventiva, pois demonstra risco real de que o acusado se furte à aplicação da lei penal.
Estratégias defensivas para obtenção da liberdade provisória
A atuação da defesa na busca pela liberdade provisória em casos de homicídio exige planejamento, rapidez e conhecimento aprofundado da jurisprudência. A seguir, as estratégias que se mostram eficazes na prática forense.
1. Preparação antecipada para a audiência de custódia
A defesa técnica deve se preparar para a audiência de custódia reunindo, em poucas horas, a documentação que demonstre os vínculos do acusado com o distrito da culpa, a ausência de antecedentes e as condições pessoais favoráveis. Quanto mais documentada for a apresentação na audiência de custódia, maiores as chances de concessão da liberdade provisória.
2. Demonstração concreta da desnecessidade da preventiva
Não basta afirmar que o réu é primário e tem bons antecedentes. A defesa deve demonstrar, com documentos e argumentação, que nenhum dos fundamentos do art. 312 do CPP está presente no caso concreto. Se não há risco de fuga, se o acusado não ameaçou testemunhas, se não há risco de reiteração e se a instrução criminal não será prejudicada pela liberdade do réu, a preventiva é desnecessária. E prisão desnecessária é prisão ilegal.
3. Proposição de medidas cautelares alternativas
Veja-se: a defesa deve propor, já na audiência de custódia, a aplicação de medidas cautelares diversas da prisão (art. 319, CPP), como monitoramento eletrônico, proibição de contato com familiares da vítima, comparecimento periódico em juízo e recolhimento domiciliar noturno. Quando a situação financeira do réu permite, a fiança criminal pode ser oferecida como garantia adicional. Essa proposição demonstra boa-fé e compromisso com o processo, além de oferecer ao juiz uma alternativa concreta à prisão.
4. Acompanhamento permanente e pedidos reiterados
Se a liberdade provisória é negada na audiência de custódia, a defesa deve manter acompanhamento permanente do caso, reiterando o pedido sempre que surgirem novos elementos favoráveis ou quando se configurar excesso de prazo. A mudança de circunstâncias — como a conclusão da instrução, a desistência de testemunhas de acusação ou a juntada de documentos favoráveis — pode fundamentar novo pedido de liberdade.
5. Impetração de habeas corpus
Quando a via ordinária se mostra ineficaz, o habeas corpus é o instrumento adequado para levar a questão ao tribunal competente. A peça deve ser clara, objetiva e demonstrar concretamente por que a prisão é ilegal ou desnecessária. A juntada de documentos que comprovem as alegações é indispensável.
A importância da defesa técnica especializada
A obtenção de liberdade provisória em crimes de homicídio exige do advogado conhecimento profundo do processo penal cautelar, domínio da jurisprudência dos tribunais superiores e capacidade de atuação rápida e estratégica. Cada hora de prisão indevida representa violação ao direito de um cidadão que, até o trânsito em julgado, é presumido inocente.
A experiência em plenário do Tribunal do Júri, por sua vez, permite ao advogado avaliar desde o início do caso quais estratégias defensivas são viáveis e como a questão cautelar se conecta com a estratégia global da defesa. Um advogado que conhece o funcionamento do júri sabe que a manutenção ou a concessão da liberdade provisória pode ter reflexos diretos na preparação da defesa, no acesso ao cliente e na construção da narrativa que será apresentada aos jurados.
Liberdade provisória em tráfico
Embora este artigo trate primordialmente do homicídio, a lógica da liberdade provisória se aplica com força ainda maior aos casos de tráfico de drogas. O STF, no julgamento do HC 118.533, decidiu que o tráfico privilegiado (art. 33, §4º, da Lei 11.343/06) não é equiparado a crime hediondo. Essa decisão tem consequências diretas na análise cautelar: se o réu é primário, de bons antecedentes, não integra organização criminosa e a quantidade de droga é pequena, a manutenção da prisão preventiva torna-se desproporcional.
Mesmo no tráfico em sua forma básica (não privilegiado), a vedação de liberdade provisória para crimes hediondos e equiparados foi declarada inconstitucional pelo STF. O juiz deve analisar os requisitos do art. 312 do CPP caso a caso. A gravidade abstrata do tráfico, por si só, não fundamenta a preventiva. A defesa deve demonstrar condições pessoais favoráveis, ausência de risco de fuga e possibilidade de aplicação de medidas cautelares alternativas, como o monitoramento eletrônico.
Liberdade provisória em estelionato e furto
Nos crimes patrimoniais sem violência — estelionato (art. 171 CP) e furto (art. 155 CP) —, a concessão de liberdade provisória é ainda mais frequente e juridicamente sustentável. São crimes que, em regra, não envolvem violência contra a pessoa e cujas penas comportam regime inicial aberto ou semiaberto.
O argumento central é a desproporcionalidade: se a pena final esperada permite regime diverso do fechado, manter o réu preso preventivamente por meses configura antecipação de pena incompatível com a presunção de inocência. O STJ tem reiterado que a prisão cautelar não pode ser mais gravosa do que a sanção que seria imposta em caso de condenação.
Para esses crimes, a defesa deve demonstrar na audiência de custódia ou em pedido posterior: primariedade, residência fixa, ausência de risco de fuga e possibilidade de substituição da prisão por medidas cautelares do art. 319 do CPP. A impetração de habeas corpus é especialmente eficaz quando a preventiva foi decretada sem fundamentação concreta nos requisitos legais.
A Lei 15.272/2025 e os novos critérios de prisão preventiva
A Lei 15.272, de 26 de novembro de 2025, trouxe alterações relevantes ao Código de Processo Penal que impactam diretamente a análise da liberdade provisória em crimes de homicídio. O novo art. 312, §3º, estabelece critérios obrigatórios para a aferição da periculosidade do agente: modus operandi do delito, participação em organização criminosa, natureza e quantidade de armas ou drogas apreendidas e risco concreto de reiteração delitiva. Veja-se: são critérios que exigem demonstração fática — não bastam presunções genéricas.
Ora, o §4º do art. 312 reafirmou, agora em texto expresso, que a prisão preventiva não pode ser decretada com base exclusivamente na gravidade abstrata do delito. É preciso que o juiz aponte fatos concretos que demonstrem a necessidade da custódia. Essa vedação, que já decorria da jurisprudência consolidada do STF e do STJ, ganha agora status de norma positivada, fortalecendo a argumentação defensiva em pedidos de liberdade provisória e habeas corpus.
Outro ponto que merece atenção: o novo art. 310, §5º, elenca circunstâncias que “recomendam” a conversão do flagrante em preventiva na audiência de custódia — reiteração delitiva, uso de violência ou grave ameaça, liberação anterior em custódia, prática do fato durante investigação ou ação penal em curso, fuga ou risco de fuga, e risco à instrução ou à prova. A defesa deve estar preparada para confrontar cada uma dessas circunstâncias com elementos concretos que demonstrem a desnecessidade da prisão.
A lei também introduziu o art. 300-A, que impõe a coleta obrigatória de DNA para investigados por crimes violentos, hediondos, sexuais e praticados por organizações criminosas armadas. No caso do homicídio qualificado (crime hediondo), a coleta é compulsória — o que reforça a importância da assistência de advogado desde o primeiro momento da persecução penal.
Conclusão
A liberdade provisória em crimes de homicídio não é exceção nem privilégio. É direito constitucional. A prisão preventiva, como medida cautelar de natureza excepcional, somente se justifica quando presentes, concretamente, os requisitos do art. 312 do CPP. A gravidade abstrata do crime, a natureza hedionda da infração e o clamor público não são, isoladamente, fundamentos idôneos para manter alguém preso antes do julgamento.
Ora, a atuação da defesa técnica, desde a audiência de custódia até a eventual impetração de habeas corpus, é decisiva para garantir que o direito à liberdade provisória seja respeitado. Cada caso exige análise individualizada, estratégia bem definida e conhecimento aprofundado da jurisprudência. Quem prende sem necessidade não faz justiça. Faz arbítrio.
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