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Prisão Temporária: Prazo, Cabimento e vs. Preventiva
Prisão e Liberdade

Prisão Temporária: Prazo, Cabimento e vs. Preventiva

· 14 min de leitura · Atualizado em agosto de 2026

Por Felipe Smargiassi · Advogado Criminalista · OAB/MG 155.242

A prisão temporária (Lei 7.960/1989) só cabe na investigação de crimes do rol legal, pelo prazo de 5 dias prorrogáveis por mais 5; em crimes hediondos, 30 dias prorrogáveis por mais 30 (Lei 8.072/1990). Diferente da preventiva, tem prazo certo: vencido sem prorrogação, a soltura é automática, independentemente de alvará.

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“A prisão antes da condenação é exceção, e a temporária é a mais excepcional das exceções: tem hora para começar e hora para acabar.” — Princípio que orienta a leitura da Lei 7.960/89

A prisão temporária é a menos compreendida das prisões cautelares. Diferente da prisão em flagrante e da preventiva, ela tem um traço que a distingue de todas: prazo certo. Existe para servir à investigação criminal e, esgotado o tempo, deve cessar. Está disciplinada pela Lei 7.960/1989 e só cabe em hipóteses estreitas, na fase de inquérito, para crimes específicos.

Compreender seus limites é essencial — porque é exatamente no descumprimento desses limites (prisão fora das hipóteses legais, manutenção além do prazo, decretação de ofício) que reside o constrangimento ilegal sanável por habeas corpus.

Tabela de referência rápida — Prisão temporária

AspectoResumo
Base legalLei 7.960/1989 (+ Lei 8.072/90 para hediondos)
Prazo (regra)5 dias + 5 (prorrogação)
Prazo (hediondos/equiparados)30 dias + 30
FaseApenas inquérito (investigação)
Quem decretaJuiz, a pedido da polícia ou do MP — nunca de ofício
RequisitosCinco, cumulativos (STF, ADIs 3360 e 4109, 11/02/2022)
Fim do prazoSoltura automática, salvo conversão em preventiva

Quando cabe a prisão temporária

O art. 1º da Lei 7.960/89 prevê três incisos:

  • I — quando imprescindível para as investigações do inquérito policial;
  • II — quando o indiciado não tiver residência fixa ou não fornecer elementos necessários ao esclarecimento de sua identidade;
  • III — quando houver fundadas razões de autoria ou participação em um dos crimes listados (entre eles homicídio doloso, sequestro e cárcere privado, roubo, extorsão, extorsão mediante sequestro, estupro, epidemia com resultado de morte, associação criminosa, genocídio, tráfico de drogas, crimes contra o sistema financeiro e terrorismo).

O cabimento, porém, não se lê mais diretamente desses incisos. No julgamento das ADIs 3360 e 4109 (Plenário, sessão virtual finalizada em 11/02/2022, voto prevalente do Min. Edson Fachin), o STF deu interpretação conforme a Constituição ao art. 1º e fixou que a prisão temporária só é cabível quando preenchidos cinco requisitos cumulativos:

  1. for imprescindível para as investigações do inquérito policial, constatada a partir de elementos concretos e não de meras conjecturas — vedado o uso como “prisão para averiguações”, em violação ao direito à não autoincriminação, ou fundada no mero fato de o representado não ter residência fixa;
  2. houver fundadas razões de autoria ou participação nos crimes do art. 1º, III — vedada a analogia ou a interpretação extensiva do rol;
  3. for justificada em fatos novos ou contemporâneos;
  4. for adequada à gravidade concreta do crime, às circunstâncias do fato e às condições pessoais do indiciado;
  5. não for suficiente a imposição de medidas cautelares diversas (arts. 319 e 320 do CPP).

Duas consequências práticas desse julgado. A primeira: o inciso II não é fundamento autônomo — o STF considerou-o dispensável e, se interpretado isoladamente, inconstitucional, registrando que não se decreta temporária apenas por situação de vulnerabilidade econômico-social (pessoa em situação de rua, desabrigada), por violação à igualdade material. A segunda: a gravidade do crime, isolada, nunca basta — é preciso demonstrar a necessidade concreta da medida para a investigação.

O prazo e por que ele importa tanto

O prazo é o coração da prisão temporária:

  • Crimes em geral: 5 dias, prorrogáveis por mais 5 em caso de extrema e comprovada necessidade.
  • Crimes hediondos e equiparados (tráfico, tortura, terrorismo): 30 dias, prorrogáveis por mais 30 (Lei 8.072/90, art. 2º, §4º).

Esgotado o prazo — e a prorrogação, se houver —, o preso deve ser solto automaticamente, sem necessidade de novo alvará, a menos que sobrevenha decisão fundamentada convertendo a temporária em prisão preventiva. Manter alguém preso além do prazo é constrangimento ilegal, e a soltura pode ser obtida por habeas corpus.

Prisão temporária x prisão preventiva

A confusão é frequente, mas as diferenças são nítidas:

CritérioTemporáriaPreventiva
FaseSó inquéritoInquérito ou processo
PrazoFixo (5+5 / 30+30)Sem prazo fixo (reavaliação periódica)
FinalidadeViabilizar a investigaçãoGarantir ordem pública, instrução ou aplicação da lei penal
CrimesRol específico (art. 1º, III)Em regra, crimes dolosos com pena máxima > 4 anos e outras hipóteses
DecretaçãoA pedido (polícia/MP)A pedido (não de ofício, após a Lei 13.964/2019)

Na prática, é muito comum a temporária ser usada como “ponte”: decreta-se a temporária no início da investigação e, antes do fim do prazo, requer-se a conversão em preventiva. A defesa deve fiscalizar a legalidade de cada etapa.

O que a defesa verifica

Diante de uma prisão temporária, os pontos de controle são objetivos:

  1. O crime está no rol do art. 1º, III — sem analogia nem interpretação extensiva?
  2. Há demonstração concreta da imprescindibilidade para a investigação (inciso I), com elementos concretos, e não apenas ausência de residência fixa?
  3. A decisão indica fatos novos ou contemporâneos e é adequada à gravidade concreta do caso?
  4. Foi afastada, de forma fundamentada, a suficiência das cautelares diversas (arts. 319 e 320 do CPP)?
  5. A decretação partiu de representação ou requerimento — e não de ofício?
  6. O prazo está sendo respeitado?
  7. Houve fundamentação idônea ou apenas referência abstrata à gravidade do crime?

Os itens 1 a 4 correspondem, um a um, aos requisitos cumulativos das ADIs 3360 e 4109: a ausência de qualquer deles é vício autônomo.

A ausência de qualquer desses elementos abre caminho para o relaxamento ou para a concessão de habeas corpus.

O que fazer agora

A prisão temporária é breve, mas decisiva: é nos primeiros dias da investigação que se define o rumo do caso. Um requerimento de relaxamento bem fundamentado, um habeas corpus impetrado a tempo ou a contestação da conversão em preventiva podem evitar meses de cárcere desnecessário.

O escritório SMARGIASSI Advogado atua em defesa criminal de urgência em todo o Brasil. Quando há uma prisão temporária em curso, cada dia conta — e a atuação técnica imediata é o que protege a liberdade dentro dos limites da lei.


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Felipe Smargiassi, advogado criminalista, OAB/MG 155.242

Sobre o autor

Felipe Smargiassi

Advogado Criminalista · OAB/MG 155.242

Criminalista com atuação em Tribunal do Júri e execução penal, a partir do Sul de Minas Gerais para todo o Brasil.

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