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“O contrato de honorários é o documento mais subestimado da advocacia criminal. Em um caso de homicídio com possibilidade de absolvição, o contrato mal-redigido custa, em média, três a cinco vezes mais do que o serviço efetivamente prestado — e ainda assim cliente e advogado se acham injustiçados.” — Comentário recorrente em encontros da OAB sobre honorários advocatícios
A contratação de advogado criminal é uma das decisões mais impactantes e mais mal-informadas de qualquer pessoa que se vê acusada. A maior parte dos clientes não conhece as referências de preço, ignora o Código de Ética da OAB sobre honorários, aceita propostas sem comparar e sem entender o que o contrato prevê. O resultado: pagamentos excessivos em casos simples, pagamentos insuficientes em casos complexos (que comprometem a defesa), conflitos posteriores entre advogado e cliente.
Este guia explica como a Tabela de Honorários da OAB funciona, as faixas de mercado em direito criminal (2026), os modelos contratuais disponíveis e os sinais de alerta na contratação.
A Tabela de Honorários da OAB
A Tabela de Honorários é publicada por cada Seccional da OAB (Estadual). É referencial, fixando piso ético mínimo:
- Em MG: Resolução 03/2019 da OAB/MG.
- Em SP: Tabela atualizada da OAB/SP.
- Em RJ: Tabela própria.
O contrato real pode estar acima ou abaixo da Tabela, conforme acordo entre as partes. Abaixo da Tabela só é admitido em condições específicas (assistência judiciária, casos de relevante interesse social, parcerias com instituições). Cobrar muito abaixo da Tabela sem justificativa pode violar o art. 38 CED (aviltamento de honorários).
Estrutura típica da Tabela
A Tabela de Honorários traz valores por tipo de processo + número de instância:
| Procedimento | Faixa OAB/MG 2026 (referencial) |
|---|---|
| Petição de habeas corpus (1ª instância) | R$ 2.000 a R$ 8.000 |
| Habeas corpus em tribunal superior | R$ 5.000 a R$ 25.000 |
| Defesa em inquérito policial | R$ 3.000 a R$ 15.000 |
| Defesa em ação penal — 1ª instância (não-júri) | R$ 8.000 a R$ 30.000 |
| Defesa em Tribunal do Júri — 1ª fase | R$ 15.000 a R$ 50.000 |
| Defesa em Tribunal do Júri — plenário | R$ 20.000 a R$ 80.000 |
| Recurso à instância superior | R$ 5.000 a R$ 25.000 |
| Defesa em audiência de custódia (24h) | R$ 1.500 a R$ 8.000 |
| Acompanhamento em delegacia | R$ 1.000 a R$ 5.000 |
(Valores aproximados; consultar a Tabela vigente da Seccional para referência exata.)
Faixas reais de mercado (2026)
Os valores praticados frequentemente superam a Tabela, principalmente em casos complexos:
Casos de baixa complexidade
- Defesa em audiência de custódia (24h): R$ 1.500 a R$ 5.000.
- JECrim (crimes de menor potencial): R$ 3.000 a R$ 10.000.
- Transação penal acompanhada: R$ 2.000 a R$ 6.000.
Casos de média complexidade
- Defesa em ação penal comum (estelionato, lesão, ameaça): R$ 8.000 a R$ 30.000.
- HC preventivo simples: R$ 3.000 a R$ 8.000.
- HC liberatório (preso): R$ 5.000 a R$ 20.000.
Casos de alta complexidade
- Tribunal do Júri (homicídio simples, primário): R$ 30.000 a R$ 80.000.
- Júri qualificado (feminicídio, vicaricídio): R$ 50.000 a R$ 200.000.
- Tráfico de drogas qualificado: R$ 30.000 a R$ 100.000.
- Organização criminosa: R$ 50.000 a R$ 200.000+.
- Operações da PF/MP estadual (Lava Jato, Mãos Limpas, etc.): R$ 100.000 a R$ 500.000+.
Honorários por instância
Cobra-se por instância: cada vez que o caso vai a um novo grau, novos honorários são devidos:
- 1ª instância (vara criminal).
- 2ª instância (TJ estadual ou TRF federal).
- STJ.
- STF.
Em casos de pena alta com recursos múltiplos, os honorários totais podem chegar a 3-5 vezes o valor da 1ª instância.
Modelos contratuais
Modelo 1 — Honorário fixo
- Valor único pago integralmente ou parcelado.
- Cobre o trabalho previsto no contrato (1ª instância, por exemplo).
- Despesas (custas, perícias, viagens) à parte.
Vantagem: previsibilidade total. Desvantagem: se o caso é mais simples que o previsto, o cliente sente que pagou caro; se é mais complexo, o advogado fica oneroso.
Modelo 2 — Honorário por fases
- Honorário por fase processual:
- Inquérito: R$ X.
- 1ª instância até sentença: R$ Y.
- Recurso ao TJ: R$ Z.
- Recurso ao STJ: R$ W.
- Pagamentos escalonados conforme o caso avança.
Vantagem: distribui custo no tempo. Cliente paga somente as fases que efetivamente acontecem.
Modelo 3 — Honorário condicional ao resultado
- Valor base (geralmente metade ou um terço do valor cheio).
- Acréscimo se houver êxito (absolvição, redução de pena, extinção da punibilidade).
- O acréscimo é em valor fixo, não em percentual sobre o “ganho” — para evitar a vedação da quota litis criminal.
Vantagem: alinhamento de interesses. Desvantagem: requer redação contratual cuidadosa para não violar ética.
Modelo 4 — Honorário por hora
- Aplicado em casos de assessoria contínua, consultoria, casos com tramitação imprevisível.
- Faixa: R$ 300 a R$ 1.500/hora dependendo da experiência.
Pouco usual em casos criminais simples; mais comum em corporativo.
O contrato de honorários
Todo serviço advocatício exige contrato escrito (art. 24 do Estatuto da OAB):
Art. 24 — A decisão judicial que fixar ou arbitrar honorários e o contrato escrito que os estipular são títulos executivos e constituem crédito privilegiado, na falência, concordata, concurso de credores, insolvência civil e liquidação extrajudicial.
Cláusulas essenciais
- Identificação completa das partes (advogado e cliente).
- Objeto: especificação do serviço (qual processo, qual fase).
- Valor: valor cheio, parcelamento, atualizações.
- Forma de pagamento: prazos, conta, comprovantes.
- Condições de êxito (se houver).
- Sucumbência: a quem cabe (geralmente, ao advogado).
- Despesas processuais: a quem cabem.
- Substabelecimento: condições.
- Rescisão: como pode ser denunciado.
- Foro de eleição: para eventual litígio.
Sucumbência
Quando o advogado vence ação em que há condenação à sucumbência (em criminal, raro; em cível conexo, frequente), os honorários de sucumbência são, em regra, do advogado — não do cliente.
Exemplo: em ação cível paralela ao crime (indenização por danos da família da vítima contra o acusado), se o acusado é vencido, a parte vencedora recebe honorários de sucumbência. Esses honorários vão ao advogado da parte vencedora.
Está enfrentando essa situação?
Fale com advogado agora →Sinais de alerta na contratação
Sinal 1 — Promessa de resultado
“Vou ganhar essa”, “absolvição garantida”, “tem 90% de chance”. Violação do art. 31 CED (“É vedado ao advogado ou ao estagiário oferecer ou garantir resultado, ou desviar a clientela…”).
Bom advogado explica cenários, não promete.
Sinal 2 — Cobrança antes de procuração
Honorário deve ser cobrado após procuração assinada ou em concomitância. Cobrar adiantado, sem vínculo formalizado, é prática que viola o contrato.
Sinal 3 — “Conheço o juiz/promotor”
Tráfico de influência é crime (art. 332 CP). Bons advogados ganham por técnica e prova, não por contato.
Sinal 4 — Honorários muito baixos sem justificativa
Aviltamento. Pode indicar:
- Inexperiência.
- Estratégia de volume (muitos casos com pouca atenção).
- Esquema fraudulento.
Bom advogado cobra o que vale o serviço.
Sinal 5 — Falta de OAB ativa
Confirmar em cna.oab.org.br que a inscrição está em situação regular. Advogado em suspensão por sanção disciplinar não pode atuar.
Sinal 6 — Ausência de contrato escrito
Todo serviço advocatício deve ter contrato (art. 24 EOAB). Quem não exige contrato pode estar agindo na clandestinidade ou em má-fé.
Como avaliar a proposta
Comparar com a faixa de mercado
Tabela acima fornece referência. Pedidos muito acima ou abaixo merecem questionamento.
Avaliar a especialização
Direito criminal tem subespecialidades:
- Tribunal do Júri.
- Execução penal.
- Tráfico e drogas.
- Crimes econômicos.
- Crimes informáticos.
Advogado generalista cobra menos mas pode comprometer caso complexo.
Pedir referência de casos
Bons advogados têm casos públicos (sem identificação do cliente, conforme sigilo profissional) que demonstram experiência.
Considerar a logística
Advogado em outra cidade pode cobrar viagens. Aumenta o custo total.
Recomendação prática
- Pesquise 2-3 advogados antes de contratar.
- Solicite contrato escrito sempre.
- Pergunte sobre cenários (quais resultados são possíveis no caso).
- Verifique a OAB ativa.
- Não pague antes da procuração assinada.
- Avalie a especialização específica.
- Compare com a faixa de mercado acima.
- Cuidado com promessas — bom advogado explica, não garante.
Resumo
| Tipo de caso | Faixa típica 2026 |
|---|---|
| Audiência de custódia | R$ 1.500-5.000 |
| JECrim | R$ 3.000-10.000 |
| HC preventivo simples | R$ 3.000-8.000 |
| HC liberatório | R$ 5.000-20.000 |
| Ação penal comum (1ª instância) | R$ 8.000-30.000 |
| Tribunal do Júri (1ª fase) | R$ 15.000-50.000 |
| Tribunal do Júri (plenário) | R$ 20.000-80.000 |
| Recurso a tribunais superiores | R$ 5.000-50.000+ |
| Crimes econômicos / operações | R$ 50.000-500.000+ |
A advocacia criminal é serviço técnico de alto risco para o cliente. Pagar pouco compromete a defesa. Pagar caro sem critério desperdiça recursos. O equilíbrio se alcança comparando referências, lendo o contrato, confirmando a especialização e exigindo transparência sobre cenários possíveis.
SMARGIASSI Advogado
Criminalista — Tribunal do Júri
Criminalista com atuação em Direito Criminal e Tribunal do Júri. Experiência consolidada em plenário.
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