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Direito Tributário

ITCMD no Rio Grande do Sul: tabela de herança e doação

· 13 min de leitura

Por Edelcio Smargiassi · Advogado Tributarista · OAB/MG 154.574

No RS, herança e doação pagam alíquotas diferentes de ITCD: causa mortis progressiva de 0% a 6%, em cinco faixas em UPF-RS; doação de 3% a 4%, em duas faixas. A UPF-RS de 2026 é R$ 28,3264. Progressivo desde 2016, antes de a EC 132/2023 tornar isso obrigatório no país, e validado pelo STF.

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No Rio Grande do Sul, o ITCD tem duas tabelas: a herança (causa mortis) paga de 0% a 6%, em cinco faixas progressivas em UPF-RS, e a doação paga de 3% a 4%, em duas faixas (arts. 18 e 19 da Lei estadual 8.821/1989). A herança de até 2.000 UPF-RS tem alíquota zero, e por isso o mesmo patrimônio pode pagar valores diferentes conforme seja doado em vida ou deixado em herança. O estado é um dos poucos do país que tratam causa mortis e doação com tabelas de alíquota diferentes, e ignorar essa diferença ao planejar a sucessão pode significar pagar mais imposto do que o necessário.

O ITCD (Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação, como é chamado no estado) é disciplinado pela Lei 8.821/1989, com a estrutura de alíquotas atual definida pela Lei 14.741/2015, em vigor desde 1º de janeiro de 2016. O Rio Grande do Sul voltou à progressividade em 2016, já a tivera na redação original de 1989 e, segundo a Receita Estadual, aplicou alíquotas fixas de 4% (herança) e 3% (doação) entre 2001 e 2015, quase oito anos antes de a Reforma Tributária tornar isso obrigatório em todo o país.

O que é o ITCD e quem paga

O ITCD é imposto estadual, previsto no art. 155, I, da Constituição Federal, sobre duas hipóteses:

  • Transmissão causa mortis: herança, por falecimento
  • Doação: transferência gratuita entre vivos

O contribuinte é o herdeiro ou legatário na causa mortis, e o donatário na doação, conforme a Lei 8.821/1989.

Duas tabelas, não uma: a diferença que o RS mantém

Diferente da maioria dos estados, onde a mesma alíquota vale para herança e doação, o Rio Grande do Sul separa os dois casos em artigos distintos da mesma lei: o art. 18 trata da causa mortis, o art. 19, da doação. As faixas são medidas em UPF-RS (Unidade Padrão Fiscal do Rio Grande do Sul), cujo valor para 2026 é R$ 28,3264 (IN RE 111/25).

Causa mortis: cinco faixas, de 0% a 6%

Faixa em UPF-RSFaixa em R$ (UPF-RS 2026)Alíquota
até 2.000até R$ 56.652,800%
de 2.000 a 10.000de R$ 56.652,80 a R$ 283.264,003%
de 10.000 a 30.000de R$ 283.264,00 a R$ 849.792,004%
de 30.000 a 50.000de R$ 849.792,00 a R$ 1.416.320,005%
acima de 50.000acima de R$ 1.416.320,006%

A primeira faixa, até 2.000 UPF-RS, cerca de R$ 56.652,80, tem alíquota zero. Não é uma isenção nomeada na lei como as demais: é o próprio desenho da tabela progressiva, que começa em 0%.

Doação: duas faixas, de 3% a 4%

Faixa em UPF-RSFaixa em R$ (UPF-RS 2026)Alíquota
até 10.000até R$ 283.264,003%
acima de 10.000acima de R$ 283.264,004%

Note-se: a doação não tem faixa de alíquota zero equivalente à da causa mortis, o primeiro real doado já pode estar sujeito a 3%, ressalvadas as isenções específicas tratadas adiante.

O que essa diferença significa na prática

Um patrimônio de, por exemplo, 40.000 UPF-RS (cerca de R$ 1.133.056,00 em 2026) transmitido por herança cairia na faixa de 5%. O mesmo valor, se doado em vida de uma só vez, cairia na faixa de 4% da doação, potencialmente menos oneroso, mas o cálculo real depende de como o valor se distribui entre beneficiários e ao longo do tempo, e a doação abre mão da faixa isenta que a causa mortis tem até 2.000 UPF-RS. Não há resposta genérica de qual caminho é mais barato: a comparação exige simulação com os valores reais do patrimônio e o número de beneficiários.

Progressividade validada pelo STF

A estrutura atual de faixas vigora desde 01/01/2016 (Lei 14.741/2015), quase oito anos antes de a EC 132/2023 tornar a progressividade obrigatória em todos os estados. A progressividade do ITCD gaúcho já havia sido levada ao STF, que a considerou constitucional no RE 562.045 (Tema 21 da repercussão geral, trânsito em julgado em 09/12/2013), julgamento sobre a redação anterior da Lei 8.821/89, mas cuja tese ampara o desenho atual dos arts. 18 e 19, segurança jurídica que muitos estados só adquiriram depois da Reforma Tributária.

Isenções do ITCD no Rio Grande do Sul

O art. 7º da Lei 8.821/1989 prevê isenções relevantes, também referenciadas em UPF-RS:

Imóvel urbano para a família

É isenta a transmissão de imóvel urbano de até 4.379 UPF-RS (aproximadamente R$ 124.041,31 em 2026), quando o beneficiário é ascendente, descendente, cônjuge ou companheiro, não é proprietário de outro imóvel e não recebe mais de um imóvel na mesma transmissão.

Imóvel rural de até 25 hectares

Isenção equivalente para imóvel rural, com área somada de até 25 hectares e valor de até 20.000 UPF-RS (aproximadamente R$ 566.528,00 em 2026), para os mesmos beneficiários, redação dada pela Lei 16.244/2024, em vigor desde 01/01/2025.

Isenção de minimis

Quando o imposto devido, já calculado, resultar inferior a 4 UPF-RS (cerca de R$ 113,31 em 2026), a transmissão é isenta, evita a cobrança de valores residuais que custariam mais para arrecadar do que representam.

Documentos para a DIT (Declaração de ITCD)

A DIT, no sistema ITC, normalmente reúne, conforme o tipo de transmissão:

  • Na causa mortis: certidão de óbito, documentos pessoais (RG/CPF) do falecido e dos herdeiros, certidão de casamento ou de união estável, matrícula atualizada dos imóveis, documento do veículo, extratos de aplicações financeiras e, havendo empresa, contrato social e balanço na data do óbito
  • Na doação: documentos pessoais do doador e do donatário, e a descrição do bem ou direito doado, no caso de doação em dinheiro, também a comprovação da origem e do valor transferido

Depois de gerada a guia e paga, o sistema emite a CDIT (Certidão de Quitação do ITCD) e a Certidão de Situação Fiscal, ambas exigidas para instruir os formais de partilha.

Erros mais comuns na declaração do ITCD gaúcho

  • Aplicar a tabela errada: usar a tabela de doação para uma transmissão causa mortis, ou vice-versa, é o erro mais específico do RS, nenhum outro estado da região tem duas tabelas simultâneas para o mesmo imposto
  • Ignorar a faixa isenta da causa mortis: transmissões de até 2.000 UPF-RS não pagam imposto, mas isso não dispensa a apresentação da DIT, a isenção precisa ser reconhecida no próprio sistema
  • Não atualizar o valor da UPF-RS no ano da transmissão: como as faixas mudam de valor em reais a cada reajuste da UPF-RS, usar a tabela do ano anterior pode levar a um cálculo incorreto
  • Avaliar quotas societárias pelo valor contábil sem lastro técnico: desde a LC 227/2026, a base de cálculo tende a ser o patrimônio líquido ajustado a valor de mercado, acrescido do fundo de comércio (art. 154, II), declarar pelo valor contábil histórico, sem justificativa, tende a gerar glosa

Base de cálculo: o valor venal e as participações societárias

A base de cálculo do ITCD, em qualquer das duas tabelas gaúchas, é o valor venal dos bens e direitos na data do fato gerador, o óbito, na causa mortis, ou a data do ato, na doação. Imóveis são avaliados a valor de mercado, com possibilidade de o contribuinte apresentar avaliação própria em caso de divergência; participações societárias tendem a ser avaliadas pelo patrimônio líquido ajustado. A LC 227/2026, ao regulamentar a Reforma Tributária como norma geral federal, passou a exigir que a avaliação de quotas e ações reflita, no mínimo, o patrimônio líquido ajustado a valor de mercado, acrescido do valor de mercado do fundo de comércio (art. 154, II), e não apenas o valor contábil histórico, o que reduz a vantagem que a doação de quotas tinha sobre a transmissão direta de imóveis.

Decadência e prescrição

O fato gerador do ITCD causa mortis é a data do óbito (LC 227/2026, art. 151, I, “a”), e a alíquota aplicável é a vigente na abertura da sucessão (Súmula 112 do STF). A partir daí, o Fisco gaúcho tem 5 anos para constituir o crédito tributário, contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado (decadência, art. 173, I, do CTN), o que em inventário judicial normalmente só ocorre depois de o Fisco ter acesso à avaliação dos bens, não do óbito, e, uma vez constituído, mais 5 anos para cobrá-lo (prescrição, art. 174). Como o Judiciário gaúcho, assim como o de outros estados, pode levar anos para homologar uma partilha, a contagem precisa ser feita caso a caso; o prazo decadencial, quando de fato ultrapassado, torna nula a exigência.

Como se declara e paga o ITCD no RS

A declaração é feita pelo sistema ITC, através da DIT (Declaração de ITCD), um formulário eletrônico em que se informam os bens, os valores e os beneficiários para apuração do imposto. Havendo valor devido, o sistema gera a guia de arrecadação; após a quitação, é emitida a Certidão de Quitação do ITCD (CDIT), documento que, junto com a Certidão de Situação Fiscal, normalmente instrui o processo de inventário, seja ele judicial ou extrajudicial.

Atraso no recolhimento

O ITCD não pago no prazo sofre multa e juros de mora, previstos na legislação tributária estadual, que crescem com o tempo de atraso. Como a DIT precisa estar “concluída”, com a guia gerada e paga, antes da emissão da CDIT, um atraso no pagamento também atrasa a própria certidão exigida para os formais de partilha, o que pode travar o andamento do inventário.

O que o Fisco costuma fiscalizar

A Receita Estadual do RS, como as demais, cruza dados entre a Declaração de Imposto de Renda (DIRPF) da Receita Federal e as declarações de ITCD registradas no sistema ITC, para identificar doações efetivamente ocorridas, transferências bancárias entre familiares, quitação de imóveis em nome de terceiros, integralização de capital social com bens de pessoa física, que não foram comunicadas ao Fisco estadual. No RS, esse cruzamento ganha um contorno específico: uma doação declarada erroneamente como se fosse causa mortis (ou o contrário) tende a aparecer no cruzamento de dados como inconsistência, já que as duas hipóteses seguem tabelas de alíquota diferentes.

Inventário judicial x extrajudicial

A escolha entre inventário judicial e extrajudicial não muda a alíquota nem a base de cálculo do ITCD, mas afeta o ritmo do processo. O inventário extrajudicial (art. 610, § 1º, do CPC), feito por escritura pública em tabelionato, é possível quando todos os herdeiros são maiores, capazes e concordam com a partilha, e tende a ser mais rápido, o que ajuda a evitar acréscimos por atraso no recolhimento. O inventário judicial é obrigatório havendo herdeiro menor, incapaz, ou divergência sobre a partilha; nesse caso, a apuração do ITCD e a emissão da guia costumam ocorrer no curso do processo, antes da homologação final.

Planejamento sucessório considerando as duas tabelas

No Rio Grande do Sul, o planejamento sucessório ganha uma variável a mais que a maioria dos estados não tem: a escolha entre transmitir em vida (doação, 3% a 4%) ou deixar para a herança (causa mortis, 0% a 6%) pode alterar a alíquota aplicável, além de afetar a base de cálculo em estruturas como a holding familiar.

Doação com reserva de usufruto, e a tabela de doação

Doar a nua-propriedade, reservando o usufruto vitalício, reduz a base de cálculo no momento do ato, mas, no RS, essa doação se sujeita à tabela de 3% a 4%, não à tabela causa mortis. Para patrimônios que ficariam nas faixas mais altas da tabela causa mortis (5% ou 6%), migrar para a doação com usufruto pode significar tanto uma base menor (nua-propriedade) quanto uma alíquota menor (tabela de doação), mas a comparação precisa considerar que a faixa isenta de 2.000 UPF-RS só existe na causa mortis.

Holding familiar

A constituição de uma holding familiar permite planejar a transmissão de quotas sociais, com a mesma lógica de qual tabela, doação ou causa mortis, incide sobre a transmissão das quotas. Depois da LC 227/2026, a avaliação das quotas passou a considerar o valor de mercado do patrimônio da empresa, acrescido do fundo de comércio (art. 154, II), o que reduz a vantagem tributária pura da holding, mas não elimina os ganhos de governança e organização sucessória. Para entender como a avaliação de quotas societárias mudou com a Reforma Tributária, veja o guia sobre holding familiar e planejamento sucessório tributário.

Diagnóstico

O Rio Grande do Sul não tem uma alíquota de ITCD: tem duas, e a diferença entre elas pode valer a decisão de doar em vida ou não. As faixas são medidas em UPF-RS, e o valor em reais muda todo ano; a UPF-RS de 2026 é R$ 28,3264. Para simular o imposto devido em um caso concreto, a calculadora de ITCMD aplica as faixas vigentes do estado informado. Cada patrimônio (número de imóveis, existência de participações societárias, quantidade de beneficiários) muda o resultado da comparação entre as duas tabelas gaúchas. Veja também como funciona o ITCMD em São Paulo e no Rio de Janeiro, para quem tem patrimônio ou herdeiros em mais de um estado. Quando a sucessão pede planejamento, o advogado tributarista do escritório analisa o caso à distância, com proposta escrita antes do contrato.

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Dr. Edelcio Smargiassi

Sobre o autor

Edelcio Smargiassi

Advogado Tributarista · OAB/MG 154.574

Doutor em Direito (UMSA), OAB/MG 154.574. Atua em Direito Tributário: execução fiscal, auto de infração, ICMS e planejamento tributário.

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