História
Lavras nasceu no rastro do Ciclo do Ouro mineiro. Por volta de 1729, o bandeirante paulista Francisco Bueno da Fonseca (c. 1670-1752) — notório por ter liderado, em 1712, uma revolta contra um juiz português em São Paulo — chegou à fértil região da confluência dos rios Capivari, Mortes e Grande acompanhado de filhos e outros colonos vindos de Santana de Parnaíba. Vinham movidos pela busca por ouro e pela abertura de novas trilhas para as minas de Goiás. Estabeleceram ali o povoado de "Sant'Ana das Lavras do Funil" — o topônimo deriva justamente das numerosas escavações ("lavras") de ouro praticadas na região. Em 1737, o governador Martinho de Mendonça de Pina e Proença concedeu aos colonos a carta de sesmaria, formalizando a ocupação fundiária e fomentando atividades agropecuárias.
A autonomia político-administrativa veio no século XIX: vila em 1831 e cidade em 1868, quando o topônimo Lavras do Funil foi encurtado para simplesmente Lavras. Relatório do fiscal Manuel Custódio Neto à Câmara, em 1832, descrevia uma vila modesta — 245 edificações, ruas não pavimentadas, três escolas primárias particulares com 62 alunos e poucas estruturas públicas: a Matriz, a Capela de Nossa Senhora do Rosário e a Capela de Nossa Senhora das Mercês. O censo de 1834 registrou 11.322 habitantes. Durante a Revolução Liberal de 1842, conservadores e liberais mantiveram quartéis-generais rivais na praça Santa Ana (hoje Praça Dr. José Esteves) por mais de um mês — entre 14 de junho e 22 de julho.
Foi entre o final do século XIX e o início do XX que Lavras viveu sua "idade de ouro". Em 18/12/1880 inaugurou-se a navegação fluvial entre os portos de Ribeirão Vermelho e Capetinga (Piumhi), com o vapor "Dr. Jorge". Em 14/04/1888 a Estrada de Ferro Oeste de Minas chegou ao porto de Ribeirão Vermelho, e em 01/04/1895 a Lavras propriamente. Em 1911 a cidade ganhou um sistema de bondes — singularidade rara para uma cidade do interior. Com a Proclamação da República, Lavras consolidou-se como polo regional do Sul de Minas, dando ao Brasil a figura de FRANCISCO SALLES, político proeminente da República Velha.
Foi também nesse período que a cidade fundou sua vocação educacional, que viria a marcá-la para sempre: o Instituto Evangélico (fundado em 1892 por Samuel Rhea Gammon — hoje Instituto Presbiteriano Gammon); o Colégio Nossa Senhora de Lourdes (1900); o Grupo Escolar de Lavras (1907, dirigido por Firmino Costa); e, sobretudo, a ESCOLA AGRÍCOLA DE LAVRAS (1908, fundada por Benjamin Harris Hunnicutt) — semente do que viria a ser, em 1994, a UNIVERSIDADE FEDERAL DE LAVRAS. Foi o jornalista Jorge Duarte quem cunhou o apelido perene da cidade: "terra dos ipês e das escolas". O censo de 1920 registrou 806 estrangeiros no município (1,9% da população) — 380 italianos, 189 portugueses, 166 libaneses, 28 espanhóis, 20 americanos, 12 austríacos, cinco franceses, dois russos, um uruguaio e três sem nacionalidade determinada — testemunho da diversidade imigratória local.