História
A história de Guarujá começa com uma data que o IBGE registra e a cidade comemora: 22 de janeiro de 1502, quando a armada portuguesa de André Gonçalves e Américo Vespúcio tocou a parte ocidental da Ilha de Santo Amaro, na praia hoje chamada Santa Cruz dos Navegantes. Foi um dos primeiríssimos desembarques europeus no que viria a ser o Brasil — e não deu em nada por três séculos. O verbete histórico do IBGE é direto sobre o motivo: topografia difícil, hostilidade indígena e áreas pantanosas mantiveram a ilha "por mais de 300 anos abandonada", com extração de óleo de baleia, pesca e poucos engenhos de açúcar como única economia.
O que a ilha tinha de valor não era a terra: era a barra. Quem controlava a entrada do estuário controlava o acesso a Santos e, por Santos, ao planalto e às minas. Daí a Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande, cuja construção começa em 1584, na ponta oeste da ilha — obra concebida no reinado de Filipe II, durante a União Ibérica, para proteger o porto de corsário francês e inglês. A fortaleza ficou operacional até 1908 e é hoje, por reconhecimento federal, Patrimônio Histórico Nacional: está inscrita no Livro do Tombo Histórico do IPHAN desde 23 de abril de 1964, no processo 441-T-50. Há mais fortificação na ilha do que a fortaleza principal — o Fortim da Praia do Góes, na mesma Barra Grande, é citado pelo próprio diagnóstico municipal como ponto de referência do bairro.
A ocupação civil moderna nasce de uma decisão comercial, não de um povoado que cresceu. Por decreto imperial de 1832 o lugarejo passou à condição de vila; em 1893 foi promovido a Vila Balneária de Guarujá — e, para inaugurar a vocação, encomendaram-se dos Estados Unidos, conforme o IBGE registra, um hotel, uma igreja, um cassino e quarenta e seis chalés residenciais desmontáveis, além de rede de água, esgoto e luz elétrica. Guarujá foi, literalmente, um balneário importado em peças e montado na areia. O hotel e o cassino fizeram da ilha destino da elite paulistana da Primeira República, e a balsa para Santos organizou o ritual do veraneio.
A emancipação é mais recente e mais lenta do que se imagina. O distrito de Guarujá foi criado pela lei estadual de 26 de outubro de 1922 — o IBGE anota a divergência de numeração entre a Lei estadual n.º 1.871 e a n.º 1.817 na própria fonte —, subordinado ao município de Santos. A elevação à categoria de município veio pelo Decreto-lei n.º 6.501, de 19 de junho de 1934, com desmembramento de Santos e sede no antigo distrito; mas a INSTALAÇÃO do município só se deu em 1º de janeiro de 1939. Guarujá tem, portanto, duas datas de nascimento administrativo, e a diferença de quatro anos e meio entre a criação e a instalação é o tipo de detalhe que decide contagem de prazo em pesquisa dominial antiga e em certidão de imóvel de origem.
O segundo distrito é obra do pós-guerra e do porto. Vicente de Carvalho foi criado pela Lei estadual n.º 2.456, de 30 de dezembro de 1953, e anexado a Guarujá — e desde a divisão territorial de 1º de julho de 1960 o município é constituído dos dois distritos, situação que permanece até hoje. Nomeado em homenagem ao poeta e magistrado santista, o distrito cresceu colado à retroárea portuária e virou o lado onde a cidade efetivamente mora: hoje concentra os bairros de maior população fixa do município, como Itapema, Pae Cará, Boa Esperança e Vila Áurea, cada um com mais moradores permanentes do que Pitangueiras e Enseada somadas em seus moradores fixos.
A segunda metade do século XX transformou o balneário em cidade grande e desigual. O acesso rodoviário pela Cônego Domênico Rangoni, aberto nos anos 1970 para aliviar as balsas, trouxe caminhão, indústria naval e retroporto; o boom do apartamento de praia encheu a orla de torres; e a migração de trabalhadores para o porto e para a construção civil povoou os morros e as áreas de mangue, produzindo os sessenta e um núcleos de ocupação irregular que a Secretaria de Planejamento hoje cataloga. O resultado é a cidade que chega ao fórum: uma orla de veraneio com 83% dos imóveis fechados fora da temporada e um continente adensado onde vive a maioria dos 287.634 guarujaenses do Censo 2022.