História
Itabirinha nasceu de uma disputa de fronteira e viveu dela. A região do braço sul do São Mateus, ou Cricaré, foi território contestado entre Minas Gerais e o Espírito Santo, e o verbete histórico do IBGE guarda o detalhe que explica tudo o que veio depois: o arraial cresceu "com a vantagem de não serem pagos impostos nem a Minas Gerais e nem ao Espírito Santo". Terra de ninguém, mata extensa e madeira para tirar — era essa a economia, e a madeira descia para Governador Valadares por uma estrada de difícil acesso que, nas palavras do verbete, era a "única ligação, na época, do arraial com a civilização". As primeiras terras vieram de doação de três nomes que a memória local guardou: Manoela Gaspar, Antônio Valério e Antônio Godinho, em meados de 1939 — e o topônimo "Dona Manoela" ainda nomeia a rua onde hoje ficam o hospital e o centro de saúde da cidade. O povoado se chamou Povoado da Boneca, por uma elevação de formas humanas que domina a paisagem e que continua na lista de atrativos do município como Pedra Boneca. Em 1940 chegou Frei Inocêncio e celebrou a primeira missa debaixo de uma árvore; no mesmo lugar, em 1942, Joaquim Balbino da Silva construiu a primeira igreja. A ascensão administrativa veio depois, e aqui esta ficha corrige a fonte que todo mundo copia. O verbete do IBGE diz, num parágrafo, que o arraial foi elevado a distrito em 12 de dezembro de 1953 pela Lei nº 1.039 e, no parágrafo seguinte, que "o distrito foi criado em 27/12/1948 pela Lei nº 336" — duas datas para o mesmo ato. As duas leis foram lidas em texto oficial, e a segunda é a certa: a Lei estadual nº 336, de 27 de dezembro de 1948, criou o distrito, no item 74 da sua relação de distritos criados, e deu-lhe divisas próprias, descritas pelo ribeirão Itabira e pelo rio Mantena até a serra de São Mateus, contra Barra do Ariranha, Água Doce de Mantena e Bom Jesus do Mantena. A Lei estadual nº 1.039, de 12 de dezembro de 1953, que fixou a divisão administrativa e judiciária do Estado para 1954-1957, apenas reafirmou o que já existia: no item 674, "Itabirinha — Vila", entre os distritos do Município de Mantena, ao lado de Mantena (Cidade), Água Doce de Mantena, Barra do Ariranha, Santo Agostinho de Minas e São João do Manteninha. Terceira correção, no mesmo passo: o verbete afirma que "com a criação do distrito, passa a se chamar Itabirinha de Mantena", e nenhuma das duas leis o chama assim — as duas escrevem Itabirinha, sem sobrenome. O sobrenome nasceu depois, na emancipação: a Lei estadual nº 2.764, de 30 de dezembro de 1962, desmembrou Itabirinha de Mantena e a elevou a município — e é a própria Lei nº 13.823/2001 que cita a Lei nº 2.764 como a lei criadora, no ato de mudar o nome da cidade. Daí em diante a história administrativa é curta e a judiciária é mais curta ainda: em sessenta e quatro anos de município, Itabirinha nunca teve fórum. Em 1982, pela Lei nº 8.285, de 8 de outubro, ganhou o distrito de Boa União de Itabirinha. Em 2001 perdeu o sobrenome "de Mantena" por lei assinada por Itamar Franco — e ganhou, sete dias depois, uma comarca de papel que ainda carrega o sobrenome que a cidade jogou fora.