História
Poucas cidades brasileiras trocaram de nome por causa de uma pedra, e menos ainda levaram a comarca no mesmo pacote. O arraial nasceu no rio Bagagem, no Sertão da Farinha Podre, que pertenceu primeiro à capitania de São Paulo, depois à de Goiás, e só passou ao domínio de Minas Gerais em 1816. As primeiras sesmarias da área foram doadas em 1818, ao Padre Fortunato José de Miranda e a Manoel Dias da Rocha, e durante a primeira metade do século XIX o lugar não passou de garimpo. O ponto de virada foi o achado do diamante Estrela do Sul no leito do Bagagem, na década de 1850, que transformou um ponto de passagem de bandeira em cidade de mineração. O rito administrativo é longo e está todo em lei. O distrito de Paz foi criado no Arraial da Bagagem em 1852, então subordinado à comarca de Patrocínio; a Lei provincial nº 667, de 27 de abril de 1854, criou o distrito com o nome de Diamantino da Bagagem; a Lei provincial nº 777, de 30 de maio de 1856, elevou o distrito a vila com o nome de Bagagem, desmembrada de Patrocínio, com sede na povoação de Bagagem e constituída do distrito sede então chamado Cachoeiras da Estrela do Sul, instalada em 30 de setembro de 1858; e a Lei provincial nº 1.101, de 19 de setembro de 1861, fez dela cidade. Nesse auge a população chegou a algo em torno de 30 mil pessoas, quase toda ligada ao garimpo e morando em habitações improvisadas que não sobreviveram ao tempo. Hoje são 6.840 habitantes — a cidade tem menos de um quarto da gente que tinha há 165 anos, e isso explica por que uma comarca instalada no século XIX é hoje de primeira entrância com vara única. A comarca foi instalada em 14 de agosto de 1892, ainda como comarca da Bagagem. O nome novo veio pelo artigo 24 da Lei estadual nº 319, de 16 de setembro de 1901, que manda aplicar "Estrela do Sul" à cidade, à comarca e ao município — e, no mesmo artigo, renomeia o arraial que já se chamava Estrela do Sul como Santa Rita da Estrela, que é hoje um distrito judiciário a 2 km da sede. Por isso a data de instalação que o Guia publica é anterior ao nome da cidade: não é sinal de supressão e restauração de comarca, como acontece em outras comarcas mineiras, e sim de topônimo trocado por lei expressa. O século seguinte foi de encolhimento territorial, e é ele que explica a jurisdição de hoje. A Lei estadual nº 556, de 30 de agosto de 1911, criou o distrito de Doliarina. A Lei estadual nº 843, de 7 de setembro de 1923, rebatizou o distrito de Cachoeiras como Estrela do Sul e o de Rio das Pedras como Cascalho Rico, extinguiu Doliarina repartindo o território entre três distritos e criou Grupiara, no antigo povoado de Troncos, com terras de Santa Rita da Estrela. O Decreto-Lei estadual nº 148, de 17 de dezembro de 1938, extinguiu Santa Rita da Estrela, anexando-a ao distrito sede. A Lei estadual nº 336, de 27 de dezembro de 1948, desmembrou Cascalho Rico e o fez município, e recriou Santa Rita da Estrela. A Lei estadual nº 1.039, de 12 de dezembro de 1953, criou o distrito de Chapada de Minas. A Lei estadual nº 2.764, de 30 de dezembro de 1962, desmembrou Grupiara, que virou município. E a Lei nº 818, de 7 de fevereiro de 2007, criou o distrito de São Félix de Estrela. É por isso que a comarca de hoje tem exatamente três municípios: a jurisdição ficou com o mapa da velha Bagagem enquanto o município foi sendo repartido por dentro. Cascalho Rico e Grupiara são filhos emancipados que nunca saíram do foro da mãe. Quem responde nesta vara é, em rigor histórico, quem responderia na comarca da Bagagem de 1892.