História
A cronologia de Ipatinga é curta e brutalmente rápida, e o mais revelador dela é a ordem em que as coisas chegaram: primeiro os trilhos, depois a usina, depois a cidade, e só quinze anos mais tarde o fórum. O ponto de partida é uma estação da Estrada de Ferro Vitória a Minas, num trecho do Vale do Rio Doce que pertencia ao município de Coronel Fabriciano e cuja parada se chamava, com singular franqueza topográfica, "Pedra Torta". O nome Ipatinga, de raiz tupi, chegou junto com a redenominação da estação, quando o lugar ainda era pouco mais que um ponto de embarque de madeira e de gente. A virada é dos anos 1950, com a decisão de instalar ali as Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais — a Usiminas —, empresa nascida de acordo entre capital brasileiro e japonês, cuja usina entrou em operação no início da década de 1960. O que veio depois não tem paralelo no interior mineiro do período: um afluxo de operários, engenheiros, comerciantes e famílias inteiras que transformou povoado em cidade em poucos anos, com bairros desenhados em prancheta, avenidas largas e um traçado que obedecia à lógica industrial antes de obedecer à lógica do casario. A emancipação de Coronel Fabriciano veio no início dos anos 1960, e por isso Ipatinga é, na prática, uma cidade de meio século que abriga um dos maiores complexos siderúrgicos da América Latina. A estrutura do Estado chegou depois — e essa defasagem explica muita coisa. Só em 12 de julho de 1977, conforme registra o Guia Judiciário do TJMG, a comarca de Ipatinga foi instalada. Até então, o morador de uma cidade que já tinha usina, bairro planejado e dezenas de milhares de habitantes tinha de subir a estrada até Coronel Fabriciano para registrar uma queixa, casar no civil ou responder a um processo. A comarca nasceu, portanto, correndo atrás da cidade — e não deixou de correr: hoje é entrância especial, com treze cargos de juiz, mais que o dobro dos seis de Coronel Fabriciano, a cidade-mãe da qual se separou.