História
A história de Mirabela começa com uma bandeira e termina, por enquanto, com uma comarca que não abriu.
O território foi aberto no rastro das expedições que subiram o São Francisco à procura de metal. A própria Prefeitura conta que Antônio Gonçalves Figueira, expedicionário da bandeira de Matias Cardoso, desbravou áreas não exploradas do vale e, no início do século XVIII, fundou as fazendas Jaíba, Olhos d'Água e Montes Claros. Com a doação de sesmarias a várias famílias vieram os primeiros núcleos de povoação, o cultivo da terra e a criação de gado — e um desses núcleos nasceu justamente no meio do caminho entre Montes Claros e Januária.
O IBGE data o começo do povoado em torno de 1882, na margem esquerda do Córrego Brejinho, e descreve o lugar com uma precisão que vale citar: "havia apenas um rancho de capim com telhado longo sustentado por varais", onde "a caminho de Montes Claros ou Januária, os tropeiros descarregavam seus burros e passavam as noites". As terras pertenciam a quatro fazendeiros ricos e devotos — João Antônio Alves de Almeida, José Antônio Mendes, Plácido da Silva Maia e Pedro Ferreira de Aquino — que mandaram construir ali uma pequena capela em honra a São Sebastião e doaram a área ao patrimônio. O povoado cresceu em volta da capela. Chamava-se Buriti; depois Bela Vista, "devido à sua localização".
A vida administrativa foi um pêndulo. O povoado era ligado a Brasília de Minas, e a lei estadual nº 556, de 30 de agosto de 1911, transferiu o distrito de Bela Vista (ex-Bonfim de Monte Claro) de Brasília para Montes Claros. Ficou distrito de Montes Claros por meio século — atravessando as divisões territoriais de 1936, 1937, 1950 e 1960 sempre na mesma condição. O decreto-lei estadual nº 1.058, de 31 de dezembro de 1943, trocou o nome Bela Vista por Mirabela e, no mesmo ato, tirou parte do seu território para criar os distritos de Patis, Santa Rosa de Lima e São Pedro da Garça, todos de Montes Claros. É um detalhe que explica o mapa de hoje: Patis nasceu de um pedaço de Mirabela.
A emancipação veio pela lei estadual nº 2.764, de 30 de dezembro de 1962, com desmembramento de Montes Claros, sede no antigo distrito de Mirabela e dois distritos, Mirabela e Patis. A instalação foi em 1º de março de 1963, às 14 horas, "em um palanque previamente armado em frente ao prédio que funcionava a intendência do Município". A ata, publicada pela Prefeitura, guarda a cena inteira: o intendente Joaquim Rabelo da Silva declarando aberta a solenidade diante de "um grande número de alunos do grupo local"; o representante do bispo da Diocese de Montes Claros cortando a fita e abençoando as instalações "sob prolongada alva de tiros"; representantes de Patis, de Muquém e do povoado de São Bento no palanque; o representante da Câmara Municipal de Montes Claros, Valdivino de Assis, discursando sobre "o esforço da Câmara Municipal de Montes Claros no sentido de que Mirabela alcançasse essa vitória" e prometendo que "os laços que unem os dois povos continuarão os mesmos, ou mais fortes"; e a aluna Luiza Marieta Gomes lembrando ao povo "sobre o Bela Vista menina e Mirabela emancipada".
Cinco meses depois, em 30 de agosto de 1963, a Câmara Municipal foi instalada — e quem deu posse aos treze vereadores eleitos (doze presentes), verificou a autenticidade dos diplomas e presidiu o escrutínio da mesa foi, diz a ata, "o Exmo. Sr. Dr. Juiz de direito da primeira vara, desta comarca de Montes Claros, Dr. Francisco Borgia Vale". O primeiro ato jurídico do Legislativo mirabelense foi de um juiz de Montes Claros.
O território continuou se mexendo. A lei estadual nº 6.769, de 13 de maio de 1976, criou o distrito de Muquém e o anexou a Mirabela, que passou a ter três distritos: Mirabela, Muquém e Patis. E a lei estadual nº 12.030, de 21 de dezembro de 1995, desmembrou Patis de Mirabela e o elevou a município. Mirabela ficou com dois distritos em 2001 e em 2007; hoje o IBGE registra três — Mirabela, Muquém e São Bento de Mirabela, o antigo povoado que já mandava representante à solenidade de 1963.
Seis anos depois de perder Patis, Mirabela ganhou no papel o que nunca teve na prática: a Lei Complementar estadual nº 59, de 18 de janeiro de 2001, criou a Comarca de Mirabela, com um juiz e o cargo JPE-182, e desenhou o seu território no Anexo II — item 188, com Mirabela, Lontra e Patis. Passaram-se vinte e cinco anos. A comarca não foi instalada. Patis continua julgado em Montes Claros, Lontra foi para São João da Ponte, e Mirabela segue onde estava em 1911: sob a jurisdição de Montes Claros.