História
A história de Iguatama começa num ponto de travessia, e isso explica quase tudo o que veio depois. No começo do século XIX o governo imperial mandou abrir uma estrada que ligasse os sertões de Goiás, o Triângulo e o Oeste de Minas às capitais da Província e do Império, e onde essa estrada cruzou o rio São Francisco mandou instalar uma balsa. Em 1830 já havia ali balsa e posto fiscal, e o lugar recebeu o nome óbvio: Porto Real. O primeiro balseiro e desbravador dos arredores chamava-se Faustino Lopes de Camargo. Abriram-se ruas ao longo da margem e chegaram forasteiros, sendo a primeira família a da viúva de Francisco Correia Pamplona, dona Bernardina Francisca de Paula Pamplona, dona de um latifúndio vastíssimo. O rio, que tinha trazido o povoado, foi também o que o obrigou a se mudar: para fugir das cheias, o arraial subiu para terreno mais alto, e foi a própria viúva Pamplona quem doou a terra ao patrimônio da capela de Nossa Senhora da Abadia, em 4 de janeiro de 1826. De 1826 a 1873 pouco se sabe do povoado. Em 1873 formou-se uma sociedade dirigida pelo capitão João Garcia Leão para construir uma ponte acima da travessia da balsa; feita de aroeira, foi inaugurada em 16 de agosto de 1877 e resistiu oitenta anos — quando o cimento armado a substituiu, na década de 1950, alguns esteios e vigas de aroeira ainda estavam de pé, segundo o registro recolhido pelo IBGE. A igreja é de 1862, erguida por Domingos Gonçalves de Carvalho, e conservou os altares coloniais depois da reforma. A trajetória administrativa é de subordinação sucessiva, e é preciso lê-la inteira para entender a geografia judiciária de hoje. O distrito foi criado como Porto Real de São Francisco pela Lei Provincial nº 1.532, de 20 de julho de 1868, e pela Lei estadual nº 2, de 14 de setembro de 1891, subordinado ao município de Formiga. Em 1923, pela Lei estadual nº 843, de 7 de setembro, ganhou um quilômetro do distrito sede de Bambuí. Em 1938, pelo Decreto-lei nº 148, de 17 de dezembro — o mesmo diploma que naquele ano reorganizou dezenas de topônimos e vínculos em Minas —, encurtou o nome para Porto Real e trocou de município, deixando Formiga para ser anexado a Arcos. Só em 31 de dezembro de 1943, pelo Decreto-lei estadual nº 1.058, o distrito foi elevado a município com o nome novo de Iguatama, desmembrado de Arcos e de parte do distrito sede de Bambuí; o verbete do IBGE anota, com honestidade, "não temos a data de instalação". Em 1962 a Lei estadual nº 2.764 criou e anexou o distrito de Corquinhos, e o município é desde então formado por dois distritos. Vale reparar na ordem das coisas: Formiga, Bambuí e Arcos — os três municípios de que Iguatama saiu por partes — são hoje três das cinco comarcas que aparecem na sua lista de substituição, e Formiga é a que vem em primeiro lugar. A geografia administrativa do século XIX continua desenhando a judiciária do século XXI. A comarca, porém, é a peça mais nova de todas: instalada em 30 de maio de 1992, meio século depois do município e mais de um século depois do distrito, ela já aparece em funcionamento na Lei Complementar estadual nº 38, de 13 de fevereiro de 1995 — a lei de organização judiciária que a LC 59/2001 substituiu e que o acervo jurídico mineiro praticamente esqueceu.