História
A história institucional desta cidade tem uma anomalia que resiste a qualquer cronologia limpa: ela mudou de nome duas vezes, perdeu e recuperou o nome do padroeiro, e a sua comarca aparece na lei quarenta e três anos antes da data que o Tribunal registra como instalação. Comece pelo começo documentado. O povoamento se organizou junto a uma capela dedicada a São Roque, construída por volta de 1758, quando gente vinda dos centros de mineração em decadência desceu para estas cabeceiras — antes disso, o verbete do IBGE registra que o território foi de indígenas Cataguases e, depois, de quilombos formados por escravizados fugidos das fazendas da região. Belmiro Rodrigues de Melo doou terrenos para o patrimônio do futuro povoado, cujo nome ficou sendo o do padroeiro, e a economia se fez de lavoura e criação de bovinos — as duas coisas que ainda a sustentam. O distrito de São Roque foi criado pela lei provincial nº 906, de 8 de junho de 1858, confirmado pela lei estadual nº 2, de 14 de setembro de 1891, e ficou por oitenta anos subordinado ao município de Piumhi. A virada é de 1938: o decreto-lei estadual nº 148, de 17 de dezembro daquele ano, elevou o distrito a município, desmembrando-o de Piumhi e de Sacramento — e trocou-lhe o nome. O município nasceu chamado GUIA LOPES, com dois distritos, Guia Lopes e Serra da Canastra, este último trazido de Sacramento. Em 1943, o decreto-lei estadual nº 1.058, de 31 de dezembro, criou dentro dele o distrito de Vargem Bonita. Em 1953 vêm, na mesma lei, as duas coisas que desenham o mapa judiciário de hoje: a lei estadual nº 1.039, de 12 de dezembro, desmembrou Vargem Bonita, que se tornou município, criou o distrito de São José do Barreiro dentro de Guia Lopes e, no anexo das Circunscrições Judiciárias, registrou a COMARCA Nº 111 — GUIA LOPES, composta pelos municípios de Guia Lopes e Vargem Bonita. Quer dizer: a comarca nasceu no mesmo ato que criou o seu segundo município, e a sua composição é a mesma há mais de setenta anos. Em 1962 a lei estadual nº 2.764 devolveu à cidade o nome do padroeiro, agora com o desambiguador de estado: São Roque de Minas. E então vem o silêncio que esta ficha não fecha: entre a divisão judiciária de 1954-1958, onde a comarca consta, e a Lei Complementar estadual nº 38, de 13 de fevereiro de 1995, onde ela reaparece com o nome novo no rol da entrância inicial, as fontes lidas não dizem o que houve — se foi suprimida e restaurada, se foi criada e ficou por instalar quatro décadas. O Tribunal dá 19 de abril de 1996 como data de instalação, e a Lei Complementar estadual nº 59, de 2001, a relaciona entre as comarcas de primeira entrância em funcionamento, sob o número 159. O nome antigo, esse, não morreu: sobrevive na Escola Municipal Guia Lopes, que a Prefeitura ainda lista na sua própria relação de telefones.