História
A história de São Gonçalo do Pará começa com uma fuga de impostos e termina, no que interessa a esta página, com uma comarca que existe só no papel. O verbete do IBGE, registro de 2008 alimentado pela própria Prefeitura, conta que a criação do povoado teve ligação estreita com os surtos revolucionários dos mineradores da Capitania de Minas Gerais, em 1717. Felipe de Freitas Mourão, português, faiscador de ouro, trabalhava nas minas de Pitangui e, por estar envolvido em movimentos contra a cobrança de impostos sobre o ouro, fugiu com a esposa Estefânia de Mourão Bravo. Subiram em direção à nascente do Rio Pará e encontraram outros portugueses fugidos de Vila Rica, Pero Gonçalves de Amaranto e Estácio Campos de Borgonha, que o convidaram para ser capataz de escravos — dava ordens nos garimpos e nas roças e, depois, saía em busca de vestígio de ouro. Foi numa dessas andanças pelas matas próximas ao rio Pará que Felipe chegou a um ribeirão com terras boas para plantar, batizou o lugar de Ribeirão dos Morais, construiu ranchos de pau a pique com reboco e sapé e para lá se transferiu em 18 de dezembro de 1723, entronizando numa capela recém-construída a imagem de São Gonçalo do Amarante, santo de grande devoção portuguesa, que trazia na bagagem. Depois disso o fundador prolongou as andanças e chegou a um local com grande reserva de madeira de lei, onde começaria o arraial primitivo. Em 1735, diz o verbete, deram por encerradas todas as construções, inclusive de uma capela com a imagem do mesmo santo, e houve a sugestão de chamar o lugar de "Pará Acima"; em 7 de setembro de 1735 o povoado recebeu o nome de "Paragem do Pará", porque Felipe afirmava ter feito parada ali quando vinha de Pitangui. De 1751 a 1755 uma nova igreja, esta em estilo barroco, foi construída no mesmo local da antiga capela. E em 1750 — um ano antes do início dessa obra, segundo a leitura literal da fonte — o povoado passou a chamar-se São Gonçalo do Pará, em referência ao Rio Pará, "o mesmo que trouxe os fundadores e hoje é linha divisória do atual município". A ordem das datas não fecha, e esta página registra a incoerência em lugar de escolher por ela. A parte administrativa da história vem em cinco datas, e as cinco explicam por que esta página fala tanto de Pará de Minas. O distrito de São Gonçalo do Pará foi criado pela lei provincial nº 765, de 2 de maio de 1856, e pela lei estadual nº 2, de 14 de setembro de 1891, SUBORDINADO AO MUNICÍPIO DE PARÁ. Na divisão administrativa de 1911 e no recenseamento geral de 1º de setembro de 1920, o distrito continuava no município de Pará. Pela lei estadual nº 806, de 22 de setembro de 1921, o município de Pará tomou o nome de Pará de Minas. Nas divisões territoriais de 1933, 1936 e 1937, o distrito seguia em Pará de Minas. E foi só pela lei nº 336, de 27 de dezembro de 1948, que São Gonçalo do Pará foi elevado à categoria de município, desmembrado de Pará de Minas, constituído do distrito-sede, com instalação em 1º de janeiro de 1949. Foram noventa e dois anos como distrito da cidade que hoje a julga. Há uma simetria rara nisso, e ela merece ser dita porque em Minas quase nunca acontece. Na maioria dos municípios sem comarca instalada, a cidade que julga não tem relação histórica com a que é julgada: a jurisdição é um acidente de mapa. Aqui, não — e a coincidência é tripla. A comarca que julga São Gonçalo do Pará é a do município de que São Gonçalo do Pará saiu; a "comarca originária" de que fala o artigo 3º, § 3º, da LC 59/2001, acrescentado pela Lei Complementar nº 166/2022, é a mesma comarca de origem administrativa; e o nome do município guarda o nome da comarca-mãe, porque o "Pará" do fim é o rio que batizou os dois. A diferença é que a comarca-mãe trocou de nome em 1921 e o município não: São Gonçalo do Pará continua carregando, no seu nome oficial, o antigo nome do município de que se separou.