História
A história de Papagaios começa com uma fazenda cercada por cinco morros e termina, no que interessa a esta página, com uma comarca que existe só no papel. O verbete do IBGE, registro de 2008 alimentado pela própria Prefeitura, conta que por volta de 1800 o território era a Fazenda de Morrinhos, do casal Manuel e Catarina Gonçalves Fraga e dos seus dois filhos, e que antes dele havia pertencido ao pai de dona Catarina, João Fraga, caçador de sesmaria sem documentação. A doação da sesmaria, diz o registro, foi feita por D. Pedro I por amizade: o imperador vinha do Rio de Janeiro de liteira, em viagens de cerca de treze dias, e se hospedava na casa da família durante o percurso. O nome Morrinhos vinha do relevo, e o verbete nomeia os cinco morros — Malhadinha, Morro da Anta, Morro da Boa Vista, Morro do Urubu e Morro do Chapéu. Quando Morrinhos virou Papagaios, ninguém registrou. A prova documental que o IBGE usa para datar a posse é uma carta, e é uma carta entre duas mulheres. O registro informa que até aproximadamente 1780 a terra ainda era do casal Gonçalves Fraga porque se conservou, em mãos do Coronel Américo Cordeiro, uma carta em que D. Joaquina do Pompéu escrevia a D. Catarina para comprar uma junta de bois. Duzentos e poucos anos depois, a via principal do Centro de Papagaios se chama Avenida Dona Joaquina do Pompeu: é lá que funcionam a Secretaria Municipal de Saúde e a Vigilância Sanitária, e é lá que estão duas drogarias, um laboratório e duas clínicas no cadastro federal. A cidade deu à sua rua mais movimentada o nome da mulher cuja carta prova a idade do lugar. Depois da morte do casal a fazenda ficou sem donos — nenhum dos dois filhos deixou descendentes e ninguém apareceu para requerer a herança —, e o terreno desabitado se transformou em povoado. A parte administrativa da história vem em três datas, e as três explicam por que esta página fala tanto de Pitangui. Até 1911 o povoado de Papagaios pertencia a Maravilhas. Em 13 de agosto de 1911, pela Lei Municipal nº 556, desmembrou-se de Maravilhas e passou a ser distrito de Pitangui. Em 12 de dezembro de 1953, pela Lei estadual nº 1.039, foi elevado à categoria de município, com instalação oficial em 20 de janeiro de 1954. Foram quarenta e três anos como distrito de Pitangui, e é à comarca de Pitangui que Papagaios responde hoje. Há uma simetria rara nisso, e ela merece ser dita porque em Minas quase nunca acontece. Na maioria dos municípios sem comarca instalada, a cidade que julga não tem relação histórica com a que é julgada: a jurisdição é um acidente de mapa. Aqui, não. A comarca que julga Papagaios é a do município de que Papagaios saiu, e a "comarca originária" de que fala o artigo 3º, § 3º, da LC 59/2001, acrescentado pela Lei Complementar nº 166/2022, coincide com a origem administrativa da cidade. A coincidência não se deduz — se confere na fonte, e neste caso a fonte fecha. O que não coincide é o outro pedaço da história: Maravilhas, de onde Papagaios se desmembrou em 1911, é hoje o município que o Anexo II da mesma lei põe dentro da comarca de Papagaios que não existe. A lei de 2001 recolocou as duas cidades juntas numa comarca de papel, oitenta e dois anos depois de a menor ter saído da maior.