História
A história de São Gonçalo do Abaeté começa num rio de diamantes e termina, por ora, numa comarca de papel. O verbete do IBGE situa a origem do povoamento da região por volta de 1713, no movimento das entradas e bandeiras rumo a Paracatu, e registra um detalhe que raramente entra em texto institucional: negros fugidos de fazendas e lavras estabeleciam quilombos naquele sertão, contribuindo também para a sua ocupação. Em meados do século XVIII a expedição organizada por Manuel Pinto da Fonseca chegou aos rios Indaiá e Abaeté, e em pouco tempo a riqueza desses leitos foi confirmada — diamantes, além de ouro. Para fiscalizar a extração, a Coroa Portuguesa instalou no início do século XIX vários quartéis gerais, entre eles o Quartel Geral de Abaeté, nas cercanias da atual cidade de Tiros. É desse contexto de garimpo fiscalizado que vem o nome do rio que batiza o município. Em maio de 1867 o distrito de Santo Antônio de Tiros foi elevado a Paróquia, e o verbete registra que já contava em seu território com o povoado de São Gonçalo de Abaeté. A formação administrativa, a partir daí, é uma sucessão de desmembramentos que vale acompanhar porque ela explica a geografia judiciária desta página. A Lei estadual nº 843, de 7 de setembro de 1923, criou o distrito de São Gonçalo do Abaeté — então ex-povoado — subordinado ao município de Abaeté, e pela MESMA lei o transferiu para o novo município de Tiros. Em 1933, 1936 e 1937 o distrito figura nas divisões administrativas como pertencente a Tiros. O Decreto-lei estadual nº 1.058, de 31 de dezembro de 1943, elevou-o à categoria de município, desmembrado de Tiros, com sede no antigo distrito e constituído de dois distritos: São Gonçalo do Abaeté e Canoeiros, este último ex-Canoas. O verbete acrescenta uma frase que é fato e não lacuna: "Não temos a datada de instalação" — o IBGE não sabe quando o município foi instalado. Nas divisões territoriais de 1º de julho de 1960 e de 1º de janeiro de 1979 o município segue com dois distritos. A Lei estadual nº 8.285, de 8 de outubro de 1982, criou o distrito de Varjão, ex-povoado, e anexou-o ao município, que passou a ter três. Treze anos depois a Lei estadual nº 12.030, de 21 de dezembro de 1995, desmembrou Varjão e o elevou à categoria de município com a denominação de Varjão de Minas. O município voltou aos dois distritos de 1943, configuração que o verbete registra em 2001 e em 2007. Hoje a API de localidades do IBGE lista TRÊS distritos — São Gonçalo do Abaeté, Canoeiros e Beira Rio —, e o terceiro é posterior ao verbete: a existência administrativa de Beira Rio se confirma pelo próprio portal da Prefeitura, que noticiou atendimento itinerante lá em setembro de 2026. O Guia Judiciário, por sua vez, só reconhece Canoeiros como distrito, o que é coerente: distrito administrativo e distrito judiciário são categorias diferentes, e Beira Rio não tem a segunda. Judiciariamente o caminho é o mais curioso de todos, e ele se lê cruzando duas fichas deste portal. Enquanto foi distrito, São Gonçalo do Abaeté respondia ao foro de quem o continha. Quando virou município em 1943, o verbete de Tiros registra que ele passou a integrar, como município, o termo judiciário de Tiros, ainda sob a comarca de São Gotardo; e que a comarca própria de Tiros veio em 1948, com São Gonçalo do Abaeté sob a sua jurisdição — por décadas. Depois disso o mapa mudou duas vezes. A Lei Complementar estadual nº 59, de 18 de janeiro de 2001, deu a São Gonçalo do Abaeté comarca própria, listada na SEGUNDA parte do Anexo I, a das comarcas criadas e por instalar, sob o item 18 e o cargo JPE-189; e, em algum momento que nenhuma das fontes lidas datou, o município deixou de responder a Tiros e passou a responder a Patos de Minas. A ficha de Tiros já publicada neste portal registra a primeira metade com fonte — "não responde mais a Tiros" — e declara expressamente não saber a segunda. Esta ficha fecha o círculo: responde a Patos de Minas, comarca instalada em 1892, a 102 km. E o desfecho tem ironia documentada: Tiros, a antiga comarca, conservou a competência federal delegada em 2026; São Gonçalo do Abaeté, que saiu dela, não tem nem comarca nem delegada.