História
A vida institucional de Tiros começou como posto de fiscalização e demorou dois séculos para virar comarca — depois virou duas vezes, o que é raro mesmo em Minas. No século XVIII, para acabar com a dispersão dos caminhos por onde escoava o contrabando de ouro e diamante rumo a Goiás e aos sertões do Paracatu, as autoridades fiscais ordenaram a abertura de uma picada única e bloquearam as demais, guarnecendo-a com quartéis policiais. O que supervisionava os outros ficava onde hoje é a cidade de Quartel Geral — município que ainda faz divisa com Tiros — e o subordinado, o Quartel D'Assunção, ficava junto ao córrego que a escaramuça com garimpeiros batizou de "ribeirão dos tiros". Um dos empreiteiros da picada, capitão de sobrenome Borba, vindo de Sabará, recebeu em pagamento a sesmaria onde hoje está o município e foi seu primeiro morador; os Morais Pessoa, filhos de um comendador português radicado em Pitangui e vindos do Quartel Geral, foram a segunda família a se fixar. Um deles era capitão-de-fragata e batizou dois acidentes geográficos da sua fazenda com nomes de embarcação, Fragata e Nau de Guerra. O povoado nasceu como pouso de tropeiros na "vila velha" e foi transferido de lugar por decisão coletiva: em 1920 um professor local, Leôncio Ferreira, propôs mudar o núcleo para o chapadão da Lagoinha, e oito anos depois o mutirão dos moradores fez a limpeza do terreno e rezou missa campal ao pé de um cruzeiro erguido no lugar exato onde depois se levantou a Matriz. Os primeiros a se transferirem foram Ernesto Bomtempo, Sebastião Dias, Agenor Faria e João Cruz — três desses quatro nomes estão hoje em logradouros da cidade, e um deles, Agenor Faria, é a rua onde ficam a Delegacia de Polícia Civil e a Secretaria de Desenvolvimento Social. A cidade que resultou foi planejada: ruas de 15 metros de largura, avenidas de 20 metros e uma praça de dez mil metros quadrados. Administrativamente, a Lei provincial nº 1.416, de 9 de dezembro de 1867, confirmada pela Lei estadual nº 2, de 14 de setembro de 1891, criou o distrito de Santo Antônio dos Tiros, então de Abaeté. A Lei estadual nº 843, de 7 de setembro de 1923, criou o município com quatro distritos desmembrados de Abaeté — Tiros, São José do Canastrão, São Gonçalo do Abaeté e Canoas — e a instalação foi em 10 de fevereiro de 1924. Em 1943 o Decreto-Lei estadual nº 1.058 entregou São Gonçalo do Abaeté e Canoeiros ao novo município daquele nome e deixou Tiros com a sede e Canastrão, configuração que dura até hoje. Judiciariamente o caminho foi mais longo. Nos quadros da divisão judiciário-administrativa de 1936, 1937 e 1938, e na que vigorou no quinquênio 1939-1944, o município de Tiros era TERMO judiciário da comarca de São Gotardo — termo é degrau intermediário, não comarca, e confundir os dois produz jurisdição histórica errada. No quinquênio 1944-1948 o termo de Tiros seguia sob São Gotardo, agora integrado por dois municípios, Tiros e o recém-criado São Gonçalo do Abaeté. A comarca própria veio, segundo o verbete do IBGE, em 1948, com São Gonçalo do Abaeté sob sua jurisdição. Depois disso a comarca sai do mapa judiciário e só reaparece com a Lei Complementar estadual nº 59, de 18 de janeiro de 2001, que a lista no Anexo I entre as de primeira entrância; a instalação que o TJMG registra é de 16 de setembro de 2002. É por isso que uma comarca com mais de meio século de certidão de nascimento tem, no cabeçalho do Guia, pouco mais de vinte anos de funcionamento — e é por isso que São Gonçalo do Abaeté, que foi distrito de Tiros e depois município da comarca de Tiros, hoje tem comarca própria criada pela mesma LC 59 e ainda não instalada.