História
A história de Araraquara começa como sertão de passagem. No século XVIII, a região que os índios guaianá chamavam de Aracoara — de ará, dia, e coara, morada — entrou nos documentos como "Campos de Aracoara" ou "Sertão de Aracoara", nome que abrangia tudo desde a margem direita do rio Piracicaba até os confins do norte e do oeste da então província. Por duas vezes a área foi rota estratégica: primeiro no início do século XVIII, com o ouro de Mato Grosso, depois no século XIX, quando as tropas brasileiras rumo à Guerra do Paraguai passaram por aqui. A ocupação efetiva, porém, veio com a posse da terra: o verbete histórico do IBGE registra Pedro José Neto como o primeiro a se estabelecer, em 1790, e o sistema de sesmarias começando a distribuir formalmente as terras em 1811 — ano em que a população local somava 82 pessoas, vivendo de gado e roça de subsistência. O nascimento institucional tem data e ato. Pela resolução régia de 22 de agosto de 1817, confirmada pelo Alvará de 30 de outubro do mesmo ano, criou-se o distrito de São Bento de Araraquara, subordinado a Piracicaba. O Decreto de 10 de agosto de 1832 elevou o povoado a vila e o desmembrou de Piracicaba, com três distritos — São Bento de Araraquara, Rincão e Santa Luzia —, e a instalação veio em 24 de agosto de 1833. Trinta e três anos depois, em 20 de abril de 1866, Araraquara foi elevada a comarca: é dessa data que se conta o foro araraquarense, quase um século e meio antes desta ficha. A condição de cidade chegou pela Lei Provincial n.º 7, de 6 de fevereiro de 1889, três meses antes da Abolição e nove antes da República. O século XX foi o do café, do trilho e da divisão do território. A cafeicultura ocupou a terra roxa e trouxe imigrantes italianos que deram sobrenome e mão de obra à cidade; a Estrada de Ferro Araraquara (EFA), inaugurada em 1898, fez do município entroncamento e ponta de trilhos rumo ao noroeste paulista e a Mato Grosso, e criou bairros inteiros ao redor das oficinas e do pátio de manobras. Ao mesmo tempo, Araraquara foi se partindo: chegou a ter sete distritos na divisão de 1933 — Araraquara, Américo Brasiliense, Gavião Peixoto (ex-Nova Paulicéia), Itaquerê, Motuca, Rincão e Santa Lúcia — e viu cada um deles se emancipar, num intervalo de quarenta e dois anos: Rincão pela Lei estadual n.º 233, de 1948; Santa Lúcia pela Lei n.º 5.285, de 1959; Américo Brasiliense pela Lei n.º 8.092, de 1964; Motuca pela Lei n.º 6.445, de 1990; e Gavião Peixoto pela Lei n.º 9.330, de 1995. Vila Xavier, criado em 1980, veio na direção contrária. Restaram três distritos — Araraquara, Bueno de Andrada e Vila Xavier —, e restou também, na geografia judiciária, a lembrança do mapa antigo: Gavião Peixoto, distrito até 1995, continua jurisdicionado à Comarca de Araraquara.