História
A história de Água Boa começa com dois núcleos e um deslocamento, e o deslocamento explica o nome. A região era habitada pelos índios ARANANS. Por volta de 1832, Geraldo Luiz, Tomáz Luiz e Sebastião Luiz Pêgo trouxeram parentes e ergueram moradias às margens do Rio Surubi, dando início a um arraial; por volta de 1835, Tomás Pêgo — que havia conquistado o convívio dos remanescentes aranans — construiu uma capela em outro ponto, às margens do Ribeirão Santo Antônio. Esse é o núcleo "Santo Antônio", e o orago sobrevive hoje no nome do distrito e do PSF que atende a comunidade.
Em 1850, por ordem governamental, o Frei Bernardino do Lago Negro, da Ordem dos Capuchinhos, iniciou outra povoação, chamada CATEQUESE, destinada ao aldeamento dos indígenas. A maioria dos índios, porém, preferiu permanecer no núcleo de Tomás Pêgo. É um detalhe que diz muito: a política oficial de aldeamento existiu aqui, foi nomeada, e foi recusada na prática pelas próprias pessoas que devia enquadrar. O topônimo resistiu ao fracasso — "Catequeses" é hoje um dos quatro distritos do município na base do IBGE. E o nome do frade batizou outro município da região, Frei Lagonegro, que integra a mesma jurisdição trabalhista de Guanhães.
O terceiro deslocamento é o definitivo. Em 11 de setembro de 1855, José Joaquim Carneiro e sua esposa, Ana Felícia da Silva, doaram terrenos para a formação do patrimônio municipal às margens do ribeirão ÁGUA BOA, e para ali se transferiram, com seus parentes, Bernardo Rodrigues da Silva, Joaquim Cardoso da Cruz, Anacleto Rodrigues da Silva, Antônio Rodrigues da Silva e Antônio Nunes da Cruz. A doação de patrimônio é o ato jurídico fundador de boa parte das cidades mineiras: alguém doa a terra, a capela se ergue, o povoado se organiza e, décadas depois, a lei o reconhece.
O reconhecimento veio em etapas, e cada etapa mudou a quem a cidade respondia. O distrito de Água Boa foi criado pelas leis provinciais nº 2.376, de 5 de setembro de 1877, e nº 3.063, de 31 de outubro de 1882, e pela lei estadual nº 2, de 14 de setembro de 1891, SUBORDINADO AO MUNICÍPIO DE MINAS NOVAS. Pela lei estadual nº 556, de 30 de agosto de 1911, o distrito deixou Minas Novas e foi anexado a CAPELINHA — e é a essa mudança de 1911, e não a uma decisão judiciária recente, que se deve o vínculo que dura até hoje. Pelo decreto-lei estadual nº 148, de 17 de dezembro de 1938, o distrito adquiriu parte do território do município de Santa Maria do Suaçuí, o que ajuda a explicar a extensão territorial atual. Nos quadros de 1933 e de 1939-1943, Água Boa continua figurando como distrito de Capelinha.
A emancipação veio pela lei estadual nº 1.039, de 12 de dezembro de 1953, desmembrando Água Boa de Capelinha, com sede no antigo distrito e constituída apenas do distrito-sede; o município foi INSTALADO em 1º de janeiro de 1954. A lei 1.039 não é uma lei de uma cidade: é a lei quinquenal da Divisão Administrativa e Judiciária do Estado, que vigorou de 1º de janeiro de 1954 a 31 de dezembro de 1958 e que, no seu art. 3º, desenhou um estado de 271 comarcas, 485 municípios e 1.215 distritos. Água Boa nasceu município no mesmo ato em que Minas redesenhou a si mesma — e nasceu sem comarca.
Em 2005, pela lei nº 737, de 29 de maio, foi criado o distrito de PALMEIRA DE RESPLENDOR, anexado ao município; a divisão territorial de 2007 já registra dois distritos. A base atual de localidades do IBGE registra quatro — sede, Palmeira de Resplendor, Novo Bonfim e Catequeses —, e o TJMG reconhece apenas um distrito judiciário, Palmeira de Resplendor. A diferença entre as três contagens não é erro de ninguém: é a distância, típica do interior mineiro, entre a divisão administrativa municipal, o cadastro estatístico federal e a divisão judiciária estadual.
Setenta e dois anos depois da emancipação, o desenho de 1911 continua de pé no que interessa ao direito: o processo do água-boense corre onde corria quando Água Boa era distrito. A lei de 2001 prometeu mudar isso e a promessa não foi cumprida.